O presidente do Banco Central (BC), Armínio Fraga Neto, o primeiro a depor ontem na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Bancos no Senado, não soube informar qual foi o prejuízo do BC na operação de ajuda aos Bancos Marka e FonteCindam. Ele teve um bate-boca com o senador Roberto Requião (PMDB-PR), que quis saber o valor exato do prejuízo. ‘‘Não tenho esse número de cabeça e questiono inclusive o conceito de perda, pois é preciso avaliar essas operações dentro das políticas globais do Banco Central na defesa do País’’, afirmou Fraga.
‘‘Não vou aqui perder meu tempo em debate com o senhor sobre o significado de conceitos teóricos, mesmo porque não estou interessado na sua visão liberal ou neoliberal’’, rebateu Requião. ‘‘Quero sabe quanto do prejuízo total de R$ 7,6 bilhões que o Banco Central teve em suas operações na BM&F (Bolsa de Mercadorias e Futuros) coube à ajuda aos Bancos Marka e FonteCindam’’, perguntou o senador. Fraga Neto pediu o prazo de uma semana para mandar a informação à CPI dos Bancos. Mas disse que, ao contrário de Requião, não tinha um pré-julgamento sobre o que tinha acontecido com as duas operações.
Mas o BC vai pelo menos tentar, com atraso e sem instrumento legal, trazer de volta ao País os R$ 17 milhões remetidos ao exterior pelo controlador do Banco Marka, Salvatore Cacciola. ‘‘Se for possível, vamos atrás’’, disse Fraga, que compareceu ao depoimento acompanhado do seu diretor de Fiscalização, Luiz Carlos Alvarez.
A sugestão para que o BC tentasse resgatar o dinheiro que Cacciola mandou para fora do País foi feita pelo vice-presidente da CPI, senador José Roberto Arruda (PSDB-DF), que, no dia anterior, tinha proposto o bloqueio dos bens dos donos e controladores dos bancos Marka e FonteCindam.
O presidente do BC declarou que os bancos estrangeiros perderam um terço do investimento em dólares em janeiro no Brasil. Fraga disse que os bancos estrangeiros têm sempre a política de manter os investimentos protegidos de mudanças cambiais e que, portanto, seria natural que eles se posicionassem em moeda estrangeira.
Ele explicou aos senadores que, mesmo tendo tido lucro em reais, ele não foi suficiente para compensar o prejuízo em moeda estrangeira. ‘‘O lucro em real não foi suficiente para cobrir o prejuízo em dólar’’, disse. Mas Fraga Neto não mencionou lucro ou prejuízo de instituições brasileiras. ‘‘Os investimentos são feitos na moeda de origem dos bancos porque o retorno também se dá na sua moeda’’, disse.
O presidente do BC admitiu que os bancos mudaram de posição com relação ao dólar nos dias que antecederam a mudança da política cambial. De acordo com o mapeamento feito pelo BC nas posições dos bancos nos dias 11 e 12 de janeiro, a mudança foi da ordem de R$ 900 milhões. Mas ressaltou que não se pode garantir que essa mudança resultou do vazamento da informação de que o governo ia alterar a política cambial. ‘‘É impossível provar que não houve vazamento’’, admitiu Fraga Neto. ‘‘Mas houve a divulgação prévia pela imprensa da possibilidade de mudança do regime’’, disse.
Fraga passou a listar uma série de matérias veiculadas pela imprensa que davam conta de futuras mudanças. Chegou até a falar de uma reportagem da revista ‘‘Veja’’, na qual o presidente FHC dizia que o então presidente do BC, Gustavo Franco, estava cansado e que o economista Francisco Lopes o poderia substituir.
A preocupação maior dos senadores, além de saber se as mudanças de posição com relação ao dólar resultaram ou não em lucro para os bancos e foram provocadas por informação privilegiada, foi com relação às perdas dos investidores dos fundos de investimento. Mesmo sem conseguir explicar direito que os fundos, administrados por um banco, são pessoas jurídicas distintas - não têm nada a ver com a posição do banco - o diretor de Fiscalização do BC, Luiz Carlos Alvarez, garantiu que 87% dos fundos lucraram em janeiro. O BC verificou perda em 6,9% dos fundos existentes.
Ainda de acordo com os dados apresentados pelo BC, o número de fundos existentes no País supera 2 mil, com movimento de recursos da ordem de R$ 153 bilhões. Com relação ao número de cotistas, Alvarez assegurou aos senadores que 99,6% obtiveram lucros nas aplicações, sendo de apenas 0,4% os que ficaram com o prejuízo. Ao fim de janeiro, o BC constatou que o lucro do sistema de fundos foi da ordem de R$ 17,2 bilhões, sendo a perda de R$ 431 milhões.

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