O presidente do Banco Central (BC), Armínio Fraga, reconheceu ontem, em depoimento à Justiça no processo que apura a venda de dólares mais barato ao Banco Marka, que a decisão do BC, que preferiu não liquidar o banco, contribuiu para reduzir o prejuízo do ex-banqueiro Salvatore Cacciola. ‘‘Benefício ele não teve nenhum, talvez tenha tido um prejuízo um pouco menor’’, disse Fraga, referindo-se ao fato de os bens de Cacciola não terem sido indisponibilizados pelo BC, uma vez que o banco não foi liquidado judicialmente, apenas obrigado a sair do mercado.
Apesar disso, ele voltou a defender a operação, sustentando que havia sim risco sistêmico que justificava a operação em janeiro de 1999. Convocado para depor como testemunha de defesa de Cacciola, Fraga preferiu não se comprometer.
O advogado do ex-banqueiro, José Carlos Fragoso, disse que entregará à Justiça o endereço do cliente na Itália, onde Cacciola está foragido, nos primeiros ‘‘dez ou 12 dias de setembro’’. A estratégia da defesa, segundo ele, é fazer com que Cacciola responda ao processo judicial sobre a venda de dólares mais baratos ao Marka perante a Justiça italiana. É que, depois de pedida e negada a extradição do ex-banqueiro, a Itália será obrigada a processá-lo de acordo com as leis do País, pois não extradita cidadãos, caso de Cacciola. ‘‘Ele responderá perante a Justiça da Itália num clima isento e imparcial’’, disse Fragoso.
No depoimento de quase quatro horas à Justiça Federal em Brasília, o presidente do BC explicou que a aposta que Cacciola fazia no mercado futuro de dólares num momento de turbulência no mercado, como o que havia em janeiro de 1999, era muito arriscada e que esse não era um comportamento habitual dos demais bancos. ‘‘O grau de alavancagem chamou a atenção’’, disse.
Segundo Fraga, o banqueiro deveria ter levado em conta nas apostas como ficaria o banco numa situação de stress no sistema financeiro, um procedimento comum entre as instituições financeiras. Fraga também explicou que, apesar de o País ter assinado um acordo como Fundo Monetário Internacional (FMI) se comprometendo a manter a política de bandas cambiais, a desvalorização não era totalmente inesperada pelo mercado.
O presidente do BC defendeu a decisão da antiga diretoria do banco sustentando que a liquidação do Marka poderia levar ao pânico no mercado. ‘‘Era plausível o risco sistêmico de natureza cambial’’, disse Fraga. O presidente do BC, entretanto, não quis responder às insistentes perguntas do juiz Ronaldo Desterro, sobre se venderia dólares à própria mãe pela cotação que o BC ofereceu a Cacciola. ‘‘Espero que ela nunca me peça isso’’, afirmou Fraga. ‘‘Não sei o que faria’’. O juiz disse que não venderia.
Em janeiro de 1999, após a tentativa de fazer uma desvalorização controlada do real, o BC vendeu dólares ao Banco Marka por R$ 1,275 para que a instituição liquidasse os contratos que tinha no mercado futuro, evitando a quebra. Com a liberação do câmbio, as cotações subiram para muito mais que o valor da venda e o BC teve um prejuízo de R$ 900 milhões.

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