Força-tarefa denuncia 192 pessoas
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 01 de agosto de 2003
Rodrigo Sais<br>Equipe da Folha 
Curitiba - A força-tarefa formada por procuradores da República e delegados da Polícia Federal instalada em Curitiba ofereceu ontem denúncias contra 194 pessoas por crimes contra o sistema financeiro nacional. Desde o dia 6 de maio, a força-tarefa vinha investigando um esquema de lavagem de dinheiro envolvendo bancos e casas de câmbio de Foz do Iguaçu e do Paraguai que teriam remetido ilegalmente para o exterior aproximadamente US$ 5 bilhões entre 1996 e 2002.
Segundo o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima, o foco das investigações nesses últimos três meses foram os agentes financeiros responsáveis pelos bancos e casas de câmbio que utilizavam as contas CC-5, de uso exclusivo de empresas e pessoas estrangeiras residentes no Brasil, para enviar dinheiro de brasileiros ao exterior, evitando assim a tributação. ''Ainda não oferecemos denúncias contra aqueles que enviaram ou receberam o dinheiro, mas sim contra aqueles que permitiram que o esquema funcionasse'', explicou Santos Lima.
Dentre os 194 nomes denunciados figuram o do ex-presidente do Banestado Domingos Tarço Murta Ramalho e de vários diretores, como o ex-governador Jayme Canet Júnior. A Folha não conseguiu contato com os acusados. De acordo com os procuradores, o banco foi um dos que mais utilizou as contas CC-5. ''Em alguns bancos a denúncia restringiu-se aos diretores, mas no Banestado há indícios de que a presidência do banco facilitou o esquema. O banco chegou a desenvolver um programa de computador que permitia aos doleiros movimentar as contas da agência do Banestado em Nova York, que era um dos principais destinos do dinheiro que deixou o País através de Foz do Iguaçu. Diretores do banco Araucária também tiveram seus nomes citados na ação.
De acordo com o delegado da Polícia Federal, Paulo Roberto Falcão Ribeiro, as denúncias irão facilitar a tramitação da ação judicial movida nos Estados Unidos que pede a quebra do sigilo das contas da agência de Nova York. ''Grande parte da movimentação bancária era referente a contrabando, o que não gera um apelo suficiente à Justiça americana para decretar a quebra do sigilo. Mas apuramos também que parte do dinheiro foi utilizado para a lavagem de dinheiro do tráfico de entorpecentes, que interessa às autoridades americanas'', afirmou.
A partir de agora, a investigação sobre o esquema de lavagem de dinheiro deve se dividir em duas frentes. Cerca de 8 mil pessoas que remeteram dinheiro através das contas CC-5 serão alvos de investigações em seus respectivos estados pelos procuradores da República regionais. Ao mesmo tempo, uma nova força-tarefa será montada para investigar o destino do dinheiro que transitava pelas contas do Banestado em Nova York. ''Saber quem recebeu o dinheiro é fundamental para descobrirmos também quem enviou o dinheiro de forma lícita ou não'', explica Santos Lima. De acordo com o procurador, os crimes não correm o risco de prescrever.
A Polícia Federal estima que entre 1996 e 2002 cerca de US$ 24 bilhões deixaram o Brasil por Foz do Iguaçu. Além dos US$ 5 bilhões enviados pelas contas CC-5, outro esquema utilizando carros-fortes era utilizado para enviar dinheiro ao Paraguai. ''As investigações continuam para apurar as outras formas de evasão de divisas'', afirmou o procurador.


