"Foi golpe e houve ditadura'", diz ex-combatente
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sábado, 30 de março de 2019
Mariana Franco Ramos - Grupo Folha 
Curitiba – Uma das vítimas da chamada Operação Marumbi, desencadeada no início dos anos 1970, com o objetivo de desarticular um suposto movimento clandestino de reorganização do PCB (Partido Comunista Brasileiro), Antonio Narciso Pires de Oliveira lamentou “os retrocessos” representados pelo governo de Jair Bolsonaro (PSL-RJ). “Vivemos um momento difícil. Não é somente retrocesso nessa narrativa do golpe, mas em todas as áreas dos direitos humanos, direitos trabalhistas e sociais. Isso não é gratuito. É a predominância de um pensamento fascista, autoritário e prepotente, que festeja não só o golpe, mas a tortura e a violência”.
Pires contou à FOLHA que foi preso seis vezes, sequestrado, viu amigos serem mortos e, em 1975, foi brutalmente torturado no quartel do exército em Apucarana (Norte do Estado), onde ficou por dois anos. O "crime" era ser integrante do MDB (Movimento Democrático Brasileiro), antecessor do PMDB e único partido de oposição permitido na época.
De acordo com o "Grupo Tortura Nunca Mais" do Paraná, pelo menos quatro mil pessoas foram detidas por motivações políticas no Estado entre 1964 e 1985, sendo que aproximadamente mil delas sofreram algum tipo de tortura. Os números, contudo, podem ser maiores, pois muitos arquivos daquele período nunca chegaram a ser abertos.
“No Brasil, 50 mil pessoas foram presas, 20 mil torturadas, mais de 400 assassinadas nos porões da ditadura, fora milhares de camponeses e índios, cujas mortes não foram contabilizadas oficialmente. Tenho a sensação de que lutamos tanto para que, de repente, ascendesse ao poder esse pensamento retrógrado, atrasado. É muito duro para quem lutou pela democracia”, lamentou o ex-combatente, que se apresenta ainda como ativista de direitos humanos.
“O golpe atrasou o País. Não foi um período de prosperidade; muito pelo contrário. Mergulhou o País na dívida externa e no entreguismo. Os militares entregaram o País já há dois anos ajoelhados para o FMI (Fundo Monetário Internacional)”, completou Pires.
Segundo ele, o fato de não terem punido os torturadores, estupradores e violadores da ditadura, os assassinos, permite que tentem reescrever essa narrativa, dizendo que houve revolução. “Mas foi golpe contra um governo legitimamente e democraticamente constituído. Foi golpe, houve ditadura e a terra não é plana”, reforçou. “Tanto foi golpe que durou quase 21 anos, teve censura e cassação de parlamentares. Desde quando numa democracia um parlamentar é cassado pelo Executivo e pessoas são condenados por terem pensamentos divergentes?”, questionou.


