Flávio Bolsonaro oficializa candidatura presidencial com presença de Milei
Após sucessão de crises políticas, filho de Jair Bolsonaro confirma neste sábado (25) seu nome para enfrentar Lula em outubro
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sábado, 25 de julho de 2026
Após sucessão de crises políticas, filho de Jair Bolsonaro confirma neste sábado (25) seu nome para enfrentar Lula em outubro
Facundo Fernández Barrio e Fran Blandy France Presse 

São Paulo - Abalado por uma sucessão de crises políticas, Flávio Bolsonaro oficializa neste sábado (25) a candidatura para enfrentar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições de outubro, durante uma convenção em São Paulo do Partido Liberal (PL), legenda do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Com o presidente argentino, o ultraliberal Javier Milei, como convidado, o PL lançará oficialmente a candidatura de Flávio Bolsonaro em meio a revelações sobre seus vínculos com o dono do Banco Master Daniel Vorcaro, disputas familiares, alianças ainda não resolvidas e críticas à sua posição diante do tarifaço imposto pelos Estados Unidos ao Brasil.
O senador, de 45 anos, medirá forças com Lula, que aos 80 anos buscará a reeleição.
Ungido como sucessor pelo pai após este ter sido preso por tentativa de golpe de Estado em 2025, Flávio Bolsonaro se apresenta aos eleitores como a chave para promover uma "mudança" e impedir um quarto mandato de Lula.
"Estamos em um avião sem piloto", afirmou na semana passada, em referência ao presidente.
Embora, em março, tenha chegado a empatar com Lula nas pesquisas de intenção de voto após reduzir a diferença em 15 pontos percentuais, Flávio perdeu fôlego nas últimas semanas. Com 48% das intenções de voto em um eventual segundo turno, o petista abriu vantagem sobre seu adversário, que aparece com 43%, segundo uma pesquisa divulgada na sexta-feira pelo Datafolha.
"O momento é de enfraquecimento, (...) há uma incerteza enquanto à viabilidade da candidatura porque a rejeição ao Flávio subiu", disse à AFP Marco Teixeira, professor do Departamento de Gestão Pública da Fundação Getúlio Vargas (FGV).
- Crises -
A maré começou a virar quando o site Intercept Brasil revelou, em maio, mensagens que Flávio Bolsonaro enviou a Vorcaro, banqueiro preso por uma megafraude financeira, pedindo dinheiro para custear um filme sobre seu pai.
O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou na quinta-feira a investigação de transferências de Vorcaro para o filme. Flávio negou ter “intimidade” com o banqueiro.
Outro flanco se abriu em sua própria família em junho, quando sua madrasta Michelle Bolsonaro se queixou nas redes de ter sido humilhada por ele: Flávio “me desrespeitou e me maltratou ao telefone (...) Disse que eu havia chegado ontem e não entendia nada de política”.
A ex-primeira-dama, esposa de Jair, é peça-chave na conexão do bolsonarismo com o importante eleitorado feminino e evangélico.
Flávio Bolsonaro divulgou na quinta-feira um vídeo pedindo desculpas, que ela aceitou em um gesto de reconciliação.
O candidato também busca alianças com o “centrão”, mas alguns partidos já anunciaram neutralidade em outubro.
A convenção do PL contará com Milei, figura de destaque da direita latino-americana, a quem a Justiça brasileira negou autorização para visitar Jair Bolsonaro em prisão domiciliar.
Em julho, Flávio Bolsonaro foi proibido pelo ministro do STF Alexandre de Moraes de visitar seu pai por três meses.
Em outro tropeço, Flávio questionou na terça-feira a confiabilidade do sistema de votação brasileiro pelas urnas eletrônicas, com argumentos semelhantes aos que levaram à inelegibilidade do ex-presidente.
- De olho nos EUA -
Lula transformou as tensões com os Estados Unidos em eixo de campanha e aponta seu rival como um “traidor” que apoia medidas comerciais do governo de Donald Trump contra o Brasil.
Os Estados Unidos aplicaram neste mês duas rodadas de tarifas a produtos brasileiros, após uma primeira sobretaxa imposta em 2025 como represália pelo julgamento de Jair Bolsonaro, aliado de Trump.
Aquela primeira punição comercial, defendida em Washington pelo ex-deputado Eduardo Bolsonaro, foi parcialmente revertida após um diálogo entre Lula e seu par americano.
Diante das novas tarifas, Flávio Bolsonaro pediu em vão ao governo Trump para adiar a medida até depois das eleições, para não dar uma “vitória política” a Lula.
Flávio: um presidenciável à sombra do pai
Flávio Bolsonaro (PL-RJ) herdou o sobrenome poderoso e o capital político do pai. Mas, sem o carisma que ajudou Jair Bolsonaro (PL) a mobilizar e remodelar a direita, tem enfrentado dificuldades para sair de sua sombra.
O senador de 45 anos era pouco conhecido nacionalmente antes do pai, hoje preso, apontá-lo como seu herdeiro político no ano passado. Até então, ele não havia demonstrado ambição de seguir os passos do ex-presidente.
Impulsionado pela marca Bolsonaro, tornou-se o principal adversário do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições de outubro.
Em entrevistas, Flávio se descreve como "um Bolsonaro mais moderado", mas afirma que seu pai sempre será "minha bússola, minha referência".
Embora o estilo inflamado de Jair Bolsonaro seja polêmico, conquistou o eleitorado conservador e o levou de um deputado do baixo clero em Brasília à Presidência da República em 2018.
Seus apoiadores estão dispostos a transferir seu voto para Flávio, mas as multidões ainda entoam o apelido do pai: "Mito", durante os eventos de campanha.
"Ele é o candidato hoje do Bolsonaro. Então é por isso que eu tô votando nele", disse à AFP a podóloga Adriana Freire, de 54 anos.
Um Bolsonaro "reeducado"
Nascido no Rio de Janeiro, Flávio é o mais velho dos cinco filhos de Jair e o que mais se parece fisicamente com ele.
Na campanha, exibe o estilo descontraído de vestir e falar típico dos cariocas.
Costuma usar jeans e camisetas com frases como "A Amazônia é nossa", para enfatizar a soberania brasileira sobre a floresta, ou "O agro é top", quando busca o apoio desse influente setor.
Em vídeos publicados na internet, chora ao falar da prisão domiciliar de seu pai e protesta com indignação contra o que considera uma perseguição da Justiça à sua família.
Jair Bolsonaro cumpre pena de 27 anos de prisão por planejar um golpe de Estado após perder por pequena margem as eleições presidenciais de 2022.
Advogado de formação, Flávio Bolsonaro tornou-se deputado estadual no Rio de Janeiro aos 21 anos e senador aos 37.
Pai de duas filhas, cultiva a imagem de homem dedicado à família. Um de seus principais slogans é "Vem com Fé".
Em um vídeo que mostra uma manhã agitada em família, sua esposa, Fernanda, dentista, afirma que ele é mais moderado que o pai graças à influência dela e brinca: "Eu reeduquei ele."
O banqueiro e a madrasta
Após um início promissor, em que as pesquisas o mostravam tecnicamente empatado com Lula na intenção de voto do eleitorado, a campanha de Flávio perdeu força em razão de uma série de escândalos.
Em maio, vazou um áudio no qual ele pede dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar um filme sobre seu pai. Vorcaro é investigado no caso do Banco Master por uma fraude bancária bilionária que levou à liquidação da instituição.
Flávio havia negado qualquer contato com Vorcaro. Depois da divulgação do áudio, afirmou que mantinha apenas uma relação comercial com o banqueiro. Questionado sobre o motivo de chamá-lo de "irmão", respondeu que esse é o "jeito carioca de falar".
Ele também enfrentou um conflito familiar com a madrasta, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que publicou um vídeo no Instagram dizendo que Flávio a havia "humilhado".
Nesta semana, Michelle aceitou um pedido de desculpas de Flávio, que busca conquistar o eleitorado feminino, um segmento tradicionalmente difícil para a direita.
Em um escândalo anterior, quando era deputado estadual pelo Rio de Janeiro, Flávio foi acusado de participar de um esquema de rachadinha, mas o caso foi arquivado.
Fã de Bukele
Como parte de sua proposta de combate ao crime, Flávio elogiou as controversas políticas de segurança do presidente salvadorenho, Nayib Bukele, e defendeu a construção de "muitos e muitos presídios".
Nas redes sociais, divulga anúncios de campanha gerados por inteligência artificial nos quais aparece usando traje de piloto e óculos de aviador a bordo de um caça militar.
Em um desses vídeos, ele se inclina pela janela da aeronave e dispara contra traficantes que estão em uma lancha.
"Ele é mais afável que o pai, ele é mais simpático (...) mas isso não significa que ele não seja ideologicamente de extrema direita", afirmou o analista político Thomas Traumann.
Em um ambiente de profunda polarização, o perfil pessoal de Flávio é irrelevante para muitos bolsonaristas.
"Eu gosto [do Flávio], mas eu votaria nele mesmo que não gostasse", disse a padeira Hercília Vieira, de 53 anos.
"Eu acho que ele é honesto e, principalmente, ele é de direita", acrescentou.


