Fiz gravação para melhorar o país
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terça-feira, 05 de julho de 2005
Leila Suwwan<br>Folhapress 
Brasília - Em depoimento à CPI dos Correios ontem, o ex-funcionário da Abin (Agência Brasileira de Inteligência), Jairo Martins de Souza, 37, confirmou ter fornecido a maleta-filmadora usada para gravar o flagrante de corrupção na estatal e declarou ter divulgado a fita por ''interesse jornalístico'' e ''para melhorar o país'', mas sem envolvimento político. Nesse ponto, Martins entrou em contradição com o empresário Arthur Washeck, mandante da gravação, que sustenta que a fita foi encomendada para defender seus interesses comerciais.
Veiculada pela revista ''Veja'' em 18 de maio, a gravação deflagrou o caso Correios. Nela, o funcionário Maurício Marinho foi filmado recebendo propina de R$ 3.000 e detalhando um suposto esquema de corrupção nas estatais que envolveria o PTB. O depoimento de Martins durou quatro horas e meia e foi pontuado pelas críticas de ''perda de tempo'' e pelos comentários irônicos dos parlamentares sobre a suposta ''filantropia investigativa'' de Martins, que se formou em jornalismo em 2004.
Por suas ligações e amizades, chegou a ser chamado de ''araponga do submundo''. Martins é policial militar licenciado e deixou a Abin há quatro anos, depois de nove anos de serviço. A CPI rejeitou o pedido de Martins para ser ouvido em sessão secreta. Ele alega estar sob ameaça de morte porque participou da gravação do caso do deputado cassado André Luiz. Martins disse que participou da gravação no qual o ex-parlamentar é flagrado cobrando propina de um emissário para impedir o depoimento na Assembléia do Rio do empresário do ramo dos jogos, Carlos Ramos (o Carlinhos Cachoeira), de quem é amigo.
Ele também declarou ter amizade com Paulo Ramos, atual diretor de operações da Abin. Questionado, disse nunca ter conversado sobre Correios com Ramos. Parlamentares, porém, suspeitam que ele poderia ter agido em defesa de interesses da Abin. Martins também foi assessor parlamentar do PSL (Partido Social Liberal) na Câmara.
Jairo Martins disse ter sido contatado por Washeck, depois de conhecê-lo em um restaurante de Brasília, para ''divulgar um problema nos Correios'' e que sua função era fornecer o equipamento de filmagem e levar a fita para o jornalista Policarpo Júnior, de ''Veja''.
Washeck tinha dito Martins foi indicado por um amigo e que já havia feito rastreamento de grampos em sua empresa. Além disso, afirmou deu instruções claras para não ''vazar'' a fita, porque a intenção seria causar a demissão de Marinho.
Além de chegar à revista ''Veja'', Washeck pediu a um amigo, Arlindo Molina, que fizesse contato direto com o deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) na gravação. Este, por sua vez, denunciou na tribuna da Câmara uma tentativa de extorsão e agravou a crise com a denúncia do suposto ''mensalão'' de deputados, pago pelo PT.
Segundo Jairo, ajudar a fazer a gravação como forma de fazer uma ''notícia-crime'', já que confiava que a Polícia Federal entraria no caso logo após a divulgação pela imprensa. ''Minha vantagem? O que me motivou foi meu país. Foi ver melhorar meu país'', disse Jairo. Ele também admitiu que ficaria com a maleta-filmadora como pagamento pela ''consultoria''.


