O ministro das Comunicações, Luiz Carlos Mendonça de Barros, e o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), André Lara Resende, teriam manipulado nos bastidores para ajudar o banco de investimentos Opportunity a ganhar, no leilão das estatais de telecomunicações, a Tele Norte Leste, que reuniu a fatia de mercado que vai do Rio até o Amazonas (a Telerj mais outras 15 teles). É o que diz a edição desta semana da revista ‘‘Veja’’. No fim, a Tele Norte Leste foi arrematada pelo Consórcio Telemar, justamente aquele que Mendonça de Barros e Lara Resende supostamente queriam afastar, com um ágio de apenas 1%.
A revista transcreve as supostas conversas entre Lara Resende, Mendonça de Barros, o economista Pérsio Arida - sócio do Opportunity e um dos pais do Plano Real - e o diretor do Banco do Brasil, Ricardo Sérgio de Oliveira. Na primeira delas, Mendonça de Barros teria sugerido ao presidente da Previ, o fundo de pensão do BB, Jair Bilachi, que se una ao Opportunity, ao qual falta dinheiro para participar do leilão.
O curioso é que o Consórcio Telemar foi inicialmente articulado por Ricardo Sérgio, a pedido de Mendonça de Barros, junto ao empresário Carlos Jereissati, dono do Grupo La Fonte. O Telemar, que serviria apenas para tornar competitiva a parte da Telebrás que embutia a Telerj - ela era considerada o patinho feio das privatizações - passou a ser um competidor de verdade, e indesejável.
As transcrições creditam ao ministro, ao falar com Bilachi, a seguinte observação: ‘‘Estamos muito preocupados com a montagem que o Ricardo Sérgio está fazendo do outro lado; o importante para nós é que vocês montem com o Pérsio, evidentemente chegando a um acordo, e tudo o que precisar nós ajudamos’’.
Em outro telefonema, desta vez a Ricardo Sérgio, Mendonça de Barros teria pedido a liberação de uma fiança do Banco do Brasil para o Banco Opportunity participar do leilão. Numa ligação posterior a Lara, o ministro e o presidente do BNDES teriam traçado uma estratégia para enganar o grupo de Jereissati e facilitar a vitória do Opportunity. Ela consistia em ‘‘vazar’’ para o grupo adversário um ágio menor do que o que o banco de investimentos ofereceria, no momento do leilão. Ocorre que o consórcio formado pelo Opportunity acabou, antes, ganhando as regiões Sul e Centro-Oeste e, como de acordo com as regras do leilão não podia ficar com duas telefônicas, abriu mão de disputar a segunda. A Telemar disputou sozinha, e levou com um ágio pequeno.
CrimeO vice-presidente do BNDES, José Pio Borges, disse que a divulgação das fitas não compromete o processo de privatização. Segundo Pio, serve de ‘‘cortina de fumaça’’ para esconder ‘‘quem praticou a escuta clandestina’’. ‘‘É uma total troca de problema, de foco de atenção’’, declarou. ‘‘O foco principal é o crime de espionagem, de buscar informações de forma ilegal, com o objetivo de tirar vantagens na privatização’’.
Pio acentuou que é natural em qualquer privatização que vendedores conversem com compradores antes do leilão. ‘‘Faz parte do acompanhamento do pré-leilão, não tem nada de ilegal nem de estranho nisso’’.
DemissãoMendonça de Barros disse sábado à Rede Globo, que assim como estimulou o Opportunity a entrar no consórcio, fez o mesmo com o outro grupo, que ganhou o leilão. Ele garante que isso pode ser provado com a publicação completa da degravação da fita, o que comprova a lisura do processo. Para ele, o objetivo do governo é criar competição e obter um preço maior.
‘‘Eu gostaria que houvesse anulação deste leilão’’, declarou o ministro, justificando que o lance do Opportunity era US$ 1 bilhão a mais do que o lance do consórcio que ganhou. ‘‘Infelizmente isso não é possível porque o leilão é transparente e tem regras, que foram fixadas anteriormente’’. O ministro concluiu seu desabafo alegando que a prova que o leilão é isento é que ‘‘ganhou o consórcio que na nossa avaliação era pior que o outro, do ponto de vista de qualidade’’.
Por outro lado, Lara Resende negou à Agência Estado que tenha pedido demissão do cargo. Indignado por ter sido ‘‘incomodado’’ em sua residência, ele limitou-se a dizer que ‘‘não dá para ficar desmentindo bobagens o tempo todo’’. Mas ele não quis comentar as degravações publicadas pela ‘‘Veja’’.
A permanência de Lara no governo, entretanto, está com os dias contados. Ele mesmo revela que foi para o BNDES contra sua vontade e anunciou que deseja se dedicar à vida acadêmica.
O presidente do PT, José Dirceu, e o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) pediram sábado a abertura de uma CPI para investigar a privatização da Telebrás. ‘‘As gravações mostram que o processo está comprometido’’, disse Suplicy. ‘‘Mendonça e Lara têm de ser demitidos e responsabilizados criminalmente’’, disse.
O inquérito, que será aberto na PF no Rio, só identificará quem fez o ‘‘grampo’’ nos telefones do BNDES e comprovará sua autenticidade. As fitas serão entregues hoje ao Instituto Nacional de Criminalística para perícia.

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