Gravações de conversas telefônicas do juiz Nicolau dos Santos Neto, envolvido no escândalo do desvio de verbas do prédio do TRT de São Paulo, comprometem o ministro Martus Tavares (Planejamento), o ex-secretário-geral da Presidência Eduardo Jorge Caldas, o senador Romeu Tuma (PFL-SP) e o deputado Robson Tuma (PFL-SP), filho do senador. Nas fitas, divulgadas pela revista ‘‘Istoɒ’, o juiz descreve a um interlocutor a influência de Eduardo Jorge sobre Martus Tavares – que, na época das gravações, era secretário-executivo do ministério.
Segundo as gravações, Martus e Eduardo Jorge teriam articulado, no governo, a liberação das verbas para a obra do TRT, da qual foram desviados R$ 169 milhões. Em um dos diálogos, Santos Neto afirma que foi atendido por Martus Tavares ‘‘várias vezes’’. Um interlocutor não identificado pergunta, então, se Martus atendia o juiz por orientação de Eduardo Jorge. ‘‘Pô, já que você tem um pistolão desses, nem precisa dizer mais nada’’, teria dito Martus, segundo o juiz.
Em setembro de 96, depois das primeiras denúncias de que a obra do TRT estava superfaturada, Martus encaminhou ao Congresso um pedido de verba suplementar para a construção do prédio. O pedido, no valor de R$ 25,7 milhões, recebeu a assinatura do presidente Fernando Henrique Cardoso. Segundo a ‘‘Istoɒ’, as conversas foram gravadas em uma investigação conjunta da Polícia Federal e da Agência Brasileira de Informações (Abin).
Santos Neto teria sido grampeado em conversas com dois interlocutores. Um deles seria um coronel ligado à chamada ‘‘comunidade de informações’’. Nas gravações, Santos Neto também fala de vários encontros com Eduardo Jorge no apartamento do ex-secretário da Presidência, no final da Asa Sul, em Brasília.
Um dos trechos sugere que o juiz frequentava o comitê de campanha de FHC, onde Eduardo Jorge despachava. Na conversa, Santos Neto demonstra dificuldade de lembrar o nome do local onde costumavam se encontrar. O interlocutor, então, pergunta: ‘‘O escritório que ele tinha no Trade Center, o comitê dele?’’. O juiz responde: ‘‘É, o comitê. Fui naquele apartamento dele. Não na casa dele’’. O comitê de campanha de FHC ficava ao lado do Edifício Trade Center, em Brasília.
Romeu Tuma e Robson Tuma, por sua vez, são citados como aliados do juiz no Congresso. Robson Tuma, segundo Nicolau, teria até apresentado uma emenda destinando verbas para o prédio do TRT. Os favores seriam retribuídos com a nomeação, no tribunal, de pessoas indicadas pelos dois parlamentares. ‘‘Eu nomeei a irmã da mulher dele (Romeu Tuma), o irmão dele, nomeei umas 16 pessoas dele. O filho dele, o Robson, me pediu umas dez pessoas e eu nomeei’’, afirma Nicolau.
Segundo o juiz, Romeu Tuma teria lhe informado que pressionou o então presidente da CPI do Judiciário, senador Ramez Tebet (PMDB-MS), para ‘‘melhorar um pouco o relatório’’, reduzindo as acusações contra Santos Neto. ‘‘Ele (Tuma) disse que o Ramez Tebet era uma boa pessoa e que tinha tido um problema num caso de um delegado de polícia e que, no fim, ele conversou com o Ramez para melhorar um pouco o relatório.’’
Santos Neto relata ainda que tinha relação de intimidade com Romeu Tuma. ‘‘Ele vinha aqui em casa uma vez por semana. Eu ia na casa dele pelo menos três vezes por semana.’’ Nesses encontros, segundo o juiz, a obra do TRT era discutida frequentemente. ‘‘Falamos várias vezes. Ele dizia: ‘‘P., tenho um parente meu (sic) que vai trabalhar lá no prédio’ (...) Era delegado de polícia, primo não sei de quem, que tomava conta lá.’’
Questionado se Tuma ‘‘participou de alguma ajuda no prédio’’, o juiz afirma: ‘‘Ele conhecia o andar da carruagem. Tinha até um parente, ou um conhecido dele, então filho dele (sic) que trabalhava lá na Incal’’. A Incal é a construtora que construiu o prédio.

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