Luciana Pombo
De Curitiba
Uma fita cassete com nova versão do depoimento feito por Shirley Aparecida Pontes, acusada de integrar a quadrilha do traficante carioca Fernandinho Beira-Mar no Paraná, foi divulgada neste fim-de-semana nas emissoras de rádio de Curitiba. Na fita, ela teria afirmado que foi induzida pelo deputado Ângelo Vanhoni (PT), presidente da Comissão Especial de Inquérito (CEI) da Assembléia Legislativa, a citar policiais e delegados que estariam envolvidos no crime organizado e tráfico de drogas no Estado. O advogado Luiz Alberto Machado, que defende o ex-delegado-geral João Ricardo Noronha, afirmou à Folha, na sexta-feira, que Shirley gravou um depoimento para ele.
‘‘Ela gravou a fita para a gente e sabia que estava gravando’’, afirmou o advogado, que já estava com o material em mãos. Machado afirmou que Sirley decidiu incriminar o então delegado-geral na CPI porque foi prometida a ela uma redução de pena.
Em uma das frases atribuídas a Shirley, ela teria dito: ‘‘Vou queimar a cara dele (Vanhoni) também. Ele disse que iria me ajudar e não me ajudou’’. Procurada pela reportagem da Rádio Cidade, na Penitenciária Feminina de Piraquara, Shirley negou que tenha dado qualquer declaração sobre o assunto. ‘‘Eu estou incomunicável. Só recebi até agora a visita de familiares. Eu não podia ter falado isto’’, disse, negando que a voz da fita fosse realmente dela. ‘‘Não me prometeram liberdade e, sim, remissão de pena. E a possibilidade de cumprir no Paraná para ficar mais perto da minha filha de sete anos’’, declarou.
Shirley Aparecida acredita que estejam querendo desmoralizar a CPI do Narcotráfico. De acordo com ela, tudo não passa de armação. ‘‘Querem me chamar de mentirosa e eu não sou. Se resolvi fazer isto foi da minha livre e espontânea vontade. Ninguém me forçou a fazer nada’’, alegou a traficante, uma das principais testemunhas a incriminar Noronha em seu depoimento.
Ela afirmou ainda que a única garantia que pediu foi a de vida. ‘‘Temo pela minha vida porque eles são muito poderosos, mais do que pensamos’’, acrescentou. Ainda ontem, o deputado estadual Ricardo Chab (PTB), presidente da Comissão de Segurança da Assembléia Legislativa, pediu para que as duas fitas – a enviada anonimamente para a redação da emissora e a que foi gravada pela reportagem com Shirley – fossem analisadas pelo perito Ivan Fontana. O resultado deverá ser divulgado ainda hoje. ‘‘Há um trabalho para se desmoralizar a CPI e que está evidente. Agora, quanto a veracidade da fita só teremos certeza com a análise de um perito’’, argumentou.
O resultado da perícia na fita será encaminhado para a Comissão de Sindicância do governo do Estado e para a CEI da Assembléia. O advogado de Noronha disse à Folha que encaminhou a fita para ser periciada. ‘‘Nós pedimos para que fosse feita a degravação e que nada fosse cortado do seu depoimento’’, disse Machado.
A versão corrente entre radialistas dá conta que a fita teria sido gravada por uma guardiã da própria penitenciária, no dia 15 de março. A fita está sendo anexada aos autos que pedem a revogação da prisão temporária de delegados e policiais. (Colaborou Carmem Murara)

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