Fisionomia conservadora preocupa petistas
PUBLICAÇÃO
sábado, 31 de julho de 2004
Vera Rosa<BR>Agência Estado 
Brasília Até mesmo os moderados do PT estão angustiados com a fisionomia conservadora do governo, que se confunde com a imagem do partido. Análises reservadas em poder dos petistas revelam que a legenda tem deixado espaço para que o PSDB recupere terreno no campo de centro-esquerda. Preocupada com o preço político a ser pago nas eleições de outubro depois da aprovação do mínimo de R$ 260, a cúpula do PT quer deixar claro que não apoiará a proposta em estudo pelo Ministério da Fazenda de desvincular gastos sociais das receitas da União.
Não se trata de confronto, mas, se a idéia for para frente, os petistas pretendem divulgar a Carta dos Direitos Sociais. Querem, na prática, reafirmar a necessidade de garantir a vinculação constitucional orçamentária. Atualmente, grande parte dos impostos e contribuições recolhidos pelo governo está ''carimbada'', ou seja, reservada para áreas específicas, como saúde e educação. A equipe econômica, porém, planeja usar esse dinheiro para fazer outros investimentos, principalmente em infra-estrutura.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assegura que não aceitará a proposta, mas o PT teme que o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, vença a parada. Afinal, já conseguiu reintroduzir na cena política e econômica a polêmica discussão sobre a autonomia do Banco Central assunto que causa ojeriza ao partido -, embora tenha combinado com parlamentares petistas que não falaria sobre o tema antes da eleição.
''Estou disposto a marcar hora, local e escolher as armas para enfrentar esse debate'', insiste Palocci. Diplomático, o presidente do PT, José Genoino, faz de tudo para abafar as insatisfações. ''Nossa administração é progressista'', desconversa.
Para defender o governo nas campanhas, o Grupo de Trabalho Eleitoral do PT está preparando cartilhas sobre diversos temas, como educação, saúde e emprego. Sustenta que, até agora, Lula investiu mais na chamada rede de proteção social do que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em seu primeiro ano de mandato.
Com dados do ministério comandado por Patrus Ananias, uma das cartilhas destaca que o governo Lula ampliou os recursos investidos no setor, passando de 1,75% do Produto Interno Bruto (PIB) em 1995 para 2,46% em 2003 um crescimento de 40,6%. Nenhum desses números, porém, é suficiente para pôr um fim na agonia dos petistas, expressa de forma leve na resolução do diretório nacional, há uma semana.
''As políticas sociais precisam ser uma das mais fortes expressões da fisionomia de esquerda do governo Lula e do PT, sacramentando o nosso compromisso com os menos favorecidos, com os mais necessitados e com a inclusão social'', diz um dos trechos do documento.
''Não há na história da esquerda nada parecido com o que está acontecendo com o PT'', afirma o sociólogo Francisco de Oliveira. Um dos fundadores do partido, Oliveira desfiliou-se no fim do ano passado, junto com uma leva de intelectuais, desiludido com o ''aliancismo desembestado'', os rumos ortodoxos da economia e também com as políticas que, na sua opinião, ''fingem ser sociais, mas são apenas a funcionalização da pobreza''.
Ex-ministro da Educação, o senador Cristovam Buarque (DF) faz ácidas críticas ao que chama de ''diluição'' da personalidade petista. ''Meu partido infelizmente sofre de visão economicista, aquela que trata o problema social como uma coisa de assistência.'' ''Eu queria ver como seriam tocadas as políticas sociais se o governo não se empenhasse para fazer o ajuste fiscal'', reage o deputado Paulo Bernardo (PT-PR), presidente da Comissão de Orçamento da Câmara.


