Brasília - O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Sepúlveda Pertence, disse que ''o financiamento privado (das campanhas políticas) é um investimento que se remunera à custa de corrupção'' e que uma das preocupações no mundo é o uso de dinheiro do narcotráfico em candidaturas. ''É notório que há financiamento privado legítimo, motivado por filiação partidária simplesmente, mas o financiamento de grandes empresas, sobretudo as que vivem de contratos com o Estado, é falsamente gratuito.'' Para ele, o ''pagamento'' é feito ao longo do mandato por meio de corrupção.
Pertence, que é defensor histórico do uso de dinheiro público nas campanhas, participou ontem de uma videoconferência promovida pelo Senado, com a participação de assembléias legislativas e algumas Câmaras municipais. Tradicionalmente os maiores doadores de campanha no Brasil são instituições financeiras e empreiteiras.
O ministro disse que o problema da origem do dinheiro utilizado nas candidaturas é mundial. ''Uma das preocupações da ciência política (no mundo) é o financiamento eleitoral provido do narcotráfico'', disse. ''A sucessão de escândalos, em escala mundial, ligada à remuneração do verdadeiro investimento em que se tem transformado o financiamento privado das campanhas leva-me a intuir que será enormemente econômico financiar com recursos públicos a campanha eleitoral.''
Pertence reconheceu que essa proposta ''não é popular neste momento de um certo desalento com a democracia que experimentamos no mundo todo, em particular na América Latina''. Sobre o risco de o narcotráfico financiar candidaturas, ele afirmou, em entrevista após a videoconferência, que essa ''é uma das preocupações da ciência política'' em todo o mundo.
O presidente do TSE também disse temer a manipulação de resultados de pesquisas de intenção de voto feitas por institutos sem credibilidade, principalmente as divulgadas na véspera e no dia das eleições, por causa de ''sua influência deletéria'' e do caráter ''irreversível'' e defendeu a busca de ''fórmulas'' para evitá-las.
O ministro disse que, quando é séria, a pesquisa exerce uma ''influência legítima'' na vontade do eleitor, que tem o direito de fazer a opção pelo voto útil. ''As grandes pesquisas têm um mínimo de controle. É o interesse na reputação comercial dos institutos que, após as eleições, vão continuar a fazer pesquisas e a viver da sua respeitabilidade'', afirmou Pertence.
''Em princípio, ela é apenas uma informação, assegurada pela liberdade de expressão, mas é preocupante, sobretudo nas eleições municipais, a possível manipulação de pesquisas de menor seriedade, às vezes montadas por empresas organizadas exclusivamente para fazê-lo.''
O ministro disse que a Justiça Eleitoral tem procurado reprimir os abusos de poder econômico e político, mas que não tem a ''ilusão'' de eliminá-lo. Para ele, a falta de um modelo seguro de identificação do eleitor é um ponto frágil do nosso sistema eleitoral, embora ele o considere de modo geral ''um dos mais confiáveis do mundo''.
Pertence descartou o risco de filas nas seções eleitorais. ''Não creio que haverá problema de filas, porque é uma votação extremamente simples'', afirmou, referindo-se ao fato de que há apenas dois cargos em disputa.
O ministro espera que o índice de abstenção seja inferior aos 17,78% registrados nas eleições gerais de 2002. Para ele, a proximidade entre eleitores e candidatos a prefeito e a vereador irá favorecer o comparecimento às seções. ''As eleições municipais tradicionalmente mobilizam o eleitorado muito de perto.''

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