Filhos do rei
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quarta-feira, 23 de janeiro de 2019
Luiz Geraldo Mazza 
Filhos do rei
Da mesma forma que o PT alegava existir pressão seletiva sobre Lula e sua família, agora os governistas afirmam que a carga contra Flavio Bolsonaro é exagerada. Nenhum dos dois lados percebe que o Brasil mudou e que não há mais clima de proteção. Quando o Lulinha enriqueceu, o pai fez o comentário "o que se pode fazer se meu filho é um Ronaldinho do computador?". Bem sacada, mas não afasta a suspeita.
Mesmo na história regional tivemos poucos casos de filhos de governador em protagonismo, conquanto as lendas os atingissem, com um deles jubilado numa universidade por manipular informes de computador. Mas nos dois últimos presidentes há material farto com essa investigação contra Flávio e mais 26 deputados em manobras no legislativo carioca pelo MP estadual, e agora a imprensa nacional devassa a movimentação de bens do hoje senador anteriores à sua condição de sócio de uma franquia.
Há a suspeita contra esses parlamentares daquele joguinho solerte de cotização de salários. Óbvio que esse caldo dá canja. E vão aparecendo detalhes de negociações imobiliárias do filho do presidente, tendo um comprador, voleibolista de praia, confirmando que lhe deu dinheiro vivo por aquisição de apartamento. Veja bem: tudo ao natural, sem delação e muito menos sem prisões prolongadas.
Tudo azul?
O Paraná sempre se orgulhou de sua situação fiscal, embora o temporário apagão técnico na passagem do bastão de Cida para Ratinho na área fazendária. Estamos melhor do que a maioria, mas não necessariamente numa boa e tanto que o secretário de Gestão Pública, que aparenta ser o timoneiro, Reinhold Stephanes, anuncia a venda de 40 imóveis, e isso ainda no primeiro semestre. Segunda-feira (21) foi a vez de Goiás decretar estado de calamidade financeira na trilha do Rio de Janeiro, que é a cloaca federativa, com seus ex-governadores Sergio Cabral e Pezão presos como ainda os ex-presidentes da Assembleia. Depois do Rio tivemos o Rio Grande do Sul, isso no dia 22 de novembro do ano passado. Vieram depois Minas Gerais, Roraima e Mato Grosso, e agora o governador Ronaldo Caiado, bem no seu estilo vulcânico, bota Goiás no contexto alegando incapacidade de arrecadação.
Ora, é justamente isso, a espera de melhora na arrecadação, que Ratinho Júnior afirma que só por aí é que poderá descongelar salários de barnabés do Executivo. Portanto, não figura no "vermelho", porém está distante do "azul". Será que o povo ao derrotar Beto Richa não o teria julgado por uma encenação em torno da situação financeira, além, é claro, pelo impacto da sua prisão junto com a primeira dama?
Desmistificação
Na onda das intervenções de Jaime Lerner dizia-se que Curitiba era a cidade mais verde da América Latina. O projeto de mapeamento do solo (MapBiomas) em outubro de 2018 mostrou que o asfalto e o concreto ocupam 63% da infraestrutura urbana. Esses dois fatores, mais a falta de uma política perene de drenagem, testam a capital a cada chuva mais intensa como as dos últimos dias. O módulo urbano de Maringá e seu espaço verde padecem por essa virtude no drama da queda de árvores, também forte na capital.
Mais 45 dias
Nesta quinta terminaria o prazo de afastamento dos vereadores Mario Takahashi e Rony Alves, elementos-chave da operação ZR3 que investiga manipulação de normas de zoneamento por políticos, empresários e profissionais liberais em Londrina. O Ministério Público pretendia prorrogar o prazo por mais 180 dias, mas o juiz da 2ª Vara Criminal fixou-o em mais 45 dias. O juiz pediu também à Prefeitura que indicasse as providências que tomou em relação àquelas graves transgressões ao Plano Diretor da cidade desde o início das medidas cautelares. Esse tipo de ocorrência é inadmissível e tem que levar isso ao fundo.
Negócio sem ideologia
Um dos bons saques de Jair Bolsonaro, em Davos, é a tese pragmática (e a única em termos de racionalidade) de que pretende atrair negócios sem viés ideológico que em situações anteriores deu a entender posição contrária, como no caso da embaixada brasileira em Israel e referência à China. Essa é a posição correta e que não foi fácil adotar quando, em plena Guerra Fria, se restabeleceu a relação comercial com a Cortina de Ferro.
Folclore
Nos anos sessenta eu dirigia um programa de debates no Canal 6, associado, e programei um sobre "relações comerciais com países socialistas". O dirigente de movimento nacionalista, o livreiro Aristides Vinholes, esquerdista manjadíssimo, e o presidente da Associação Comercial, Oscar Schrappe Sobrinho, da extrema direita, figuravam no octógono do estúdio.
O Vinholes não tinha noção do alcance do microfone e momentos depois de fazer ironia contra o seu colega do conselho da Associação Comercial do Paraná, falou ao meu ouvido, mas perceptível aos telespectadores: "com essa nós acabamos com esse alemão nazista!" Schrappe não era um nazista, mas um homem direito da direita com quem mantive polêmica porque ele queria privatizar a Imprensa Oficial e eu, voto contrário num grupo de trabalho montado pelo governo Ney Braga, consegui afastar. Schrappe é pioneiro das privatizações.


