Último presidente da República do período da ditadura, general concluiu processo de abertura política e redemocratização do País
Arquivo FolhaNO CARGOO ex-presidente, em 1984: segundo amigo, ele morreu ‘‘com muitos segredos’’

Agências Folha e Estado
Do Rio e de Brasília

Morreu ontem por volta das 9 horas o ex-presidente João Baptista de Oliveira Figueiredo, de 81 anos, em seu apartamento no condomínio Praia Guinle, em São Conrado, na zonal sul do Rio de Janeiro. Ele sofria de insuficiência renal e cardíaca. O enterro deve ser realizado hoje, às 11 horas, no Cemitério do Caju (zona norte). O velório, por decisão de sua mulher, Dulce Figueiredo, deveria ser realizado no próprio apartamento, com a presença unicamente de familiares e amigos próximos da família.
Figueiredo vivia desde 1995 fazendo hemodiálise, já que seus rins já não conseguiam mais filtrar o sangue. Naquele ano, ele foi operado para que fosse eliminado um aneurisma (dilatação) da artéria aorta. No último dia 30 de novembro, o ex-presidente foi internado no Hospital São José, em Botafogo, onde permaneceu por uma semana. Na ocasião, seu médico, Aloysio Salles, considerava a insuficiência renal de Figueiredo como ‘‘insolúvel’’.
O presidente Fernando Henrique Cardoso designou o comandante do Exército, general Gleuber Vieira, para representá-lo no velório e enterro de Figueiredo. FHC está no Rio, onde descansa durante o período de Natal e final de ano.
Além dos problemas com os rins, Figueiredo sofria de hérnia de disco, incontinência urinária e tinha a visão reduzida em 70% da capacidade normal. Há dois anos, procurando solução para as dores na coluna causadas pela hérnia, Figueiredo chegou a se submeter a ‘‘operações espirituais’’ promovidas pelo médium Rubem de Farias Júnior, que dizia incorporar o espírito do doutor Fritz.
‘‘Ele morreu com muitos segredos’’, disse Antonio Oliveira Santos, presidente da Confederação Nacional do Comércio, um dos primeiros amigos a chegar ao apartamento de Figueiredo ontem. A pedido dos amigos, Figueiredo chegou a iniciar a gravação de um depoimento sobre seu período de governo, entre 1979 e 1985, e de sua gestão no Serviço Nacional de Informações (SNI), de 1974 em diante, quanto então assumia a Presidência o general Ernesto Geisel.
Segundo Santos, Figueiredo se cansou com os depoimentos e decidiu destruir as fitas que já havia gravado. Santos foi o organizador do último evento público ao qual Figueiredo compareceu, há quatro meses, quando o ex-presidente foi homenageado com um almoço numa churrascaria da zona sul do Rio.
Segundo Santos, na ocasião Figueiredo estava bem, apesar de ter que se deslocar amparado por dois seguranças. Depois da homenagem, Santos diz que o ex-presidente veio piorando seu estado de saúde e, nos últimos tempos, já não conseguia reconhecer as pessoas.
Leonel Brizola, ex-governador do Rio, ao saber da morte disse que a história fará justiça a Figueiredo, tanto ao enorme esforço que realizou para que se encerrasse o período discricionário, como a despeito a pressões e armadilhas que se colocaram em seu caminho. Brizola, que foi exilado pelo regime militar e retornou com a anistia aprovada por Figueiredo, disse que os dois tiveram um bom relacionamento. ‘‘Ele respeitava os que lhe faziam oposição, tanto que gostaria de registrar que por ele teria assumido a presidência da República o doutor Ulysses Guimarães e não o senhor José Sarney, quando da morte de Tancredo Neves’’, afirmou.
Figueiredo nasceu em 15 de janeiro de 1918, no Rio de Janeiro. Era filho do general Euclides de Oliveira Figueiredo, um dos líderes da Revolução de 1932, contra o governo de Getúlio Vargas. Guilherme Figueiredo, um dos seus irmãos, foi escritor, tendo escrito entre outros os livros ‘‘Trinta Anos Sem Paisagem’’ e o ‘‘Tratado Geral dos Chatos’’.
O presidente Fernando Henrique Cardoso decretou ontem luto oficial de três dias pela morte do ex-presidente João Figueiredo. FHC, que está no Rio de Janeiro, determinou que o comandante do Exército, general Gleuber Vieira, o represente no enterro. Em nota oficial, FHC lamentou a morte do ex-presidente e acrescentou que ‘‘no seu governo, com a aprovação do projeto da anistia, foi possível a volta de exilados brasileiros’’. E prossegue: ‘‘Houve reconciliação e espaço para que a sociedade iniciasse a reconstrução democrática’’.
O ministro-chefe da Casa Civil, Pedro Parente, única autoridade do governo federal no Palácio do Planalto, informou que Fernando Henrique mandou colocar à disposição da família todos os meios necessários para atendê-los. Fernando Henrique pediu ainda que o atual comandante do Exército consulte a família do general morto para saber se eles desejam que o enterro seja realizado com as honras militares a que o ex-presidente tem direito.

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