HavanaO abismo insondável que separava a vida pública do presidente cubano Fidel Castro de sua vida pessoal vem se fechando lentamente nos últimos tempos em Cuba, permitindo contemplar o seu lado humano, sempre ofuscado por sua avassaladora personalidade política. Em um fato quase inédito na ilha, três artigos de jornal foram dedicados nos últimos dias a dois dos filhos do líder cubano, que conseguiram notoriedade por méritos próprios e não por seus vínculos familiares.
O semanário Trabajadores deu meia página a uma reportagem com o médico ortopedista Antonio Castro Soto del Valle, um dos cinco filhos do casal formado por Fidel Castro Ruz e Dalia Soto del Valle, atual esposa do comandante-em-chefe da revolução cubana. ‘‘Entre o beisebol e a sala de operação’’, se intitula o artigo do semanário, que mostra uma foto do médico Antonio Castro em um jogo de beisebol e outra com seu jaleco fazendo uma intervenção cirúrgica. Em nenhum momento se faz menção de que se trata do filho do presidente de Cuba.
Por sua vez, os jornais Granma e Juventud Rebelde comentam o próximo lançamento do livro ‘‘Cuba. Amanecer del Tercer Milenio’’, cujo autor é Fidel Castro Díaz-Balart, primogênito dos filhos do chefe de Estado, fruto de seu casamento com Mirta Díaz-Balart, de quem se separou nos meados de 1950.
O livro é uma revisão ‘‘dos problemas mais candentes da ciência moderna e do pensamento humanístico’’, assinala a resenha sobre o trabalho de Díaz-Balart, um especialista em física reconhecido por sua atuação na especialidade.
O rigoroso véu de silêncio que cobre a vida privada de Fidel Castro faz com que os nomes ou imagens de Antonio e seus irmãos, ou o da senhora Soto del Valle, sejam quase desconhecidos para a maioria dos cubanos, que se encerram no mutismo ao serem consultados sobre a questão por jornalistas estrangeiros em Havana.
Porém com 75 anos, 43 deles no exercício do poder, a vida íntima de Fidel começa lentamente a ser revelada. As fotos dos filhos de Fidel Castro e de sua mulher já integram os arquivos da imprensa estrangeira em Cuba, algo impensável em um passado não muito remoto.
Há três anos, interrogado pela documentarista americana Estela Bravo para o filme ‘‘Fidel, 40 años de la revolución cubana y su líder’’, ele explicou que ‘‘sempre foi contrário a mesclar a política com os assuntos íntimos e pessoais’’.
‘‘Nesse sentido, me reservei uma liberdade total que muito pouca gente no mundo se pôde reservar’’, acrescentou.
O certo é que alegando razões de segurança – os serviços de inteligência cubanos denunciaram mais de 600 tentativas de assassinato contra Castro desde que assumiu o poder em 1959 – ou por decisão própria, a família do presidente de Cuba é quase desconhecida para o público dentro e fora da ilha.
Afirma-se que tem oito filhos. Alejandro, Alexis, Antonio, Alex e Angel, de sua união com Dalia Soto del Valle; Fidel, com Mirta Díaz-Balart; Jorge Angel Castro e Alina Fernández, frutos de relações extramaritais em sua juventude.
Com exceção de Alina, exilada em Miami e que se opõe politicamente ao seu pai, os outros filhos de Fidel Castro vivem em Cuba, assimilados à população e sem ocupar cargos políticos. Ignora-se quantos netos tem, mas se sabe que Fidel é avô há vários anos.
Milhões de páginas têm sido têm escritas sobre Fidel o guerrilheiro, o caudilho revolucionário, o líder, o político, mas até agora ninguém conseguiu penetrar o círculo de sua intimidade e esboçar uma completa e verdadeira biografia dele.

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