FHC viaja em busca de capital inglês
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domingo, 30 de novembro de 1997
Agências Estado e Folha Londres 
O presidente Fernando Henrique Cardoso começa amanhã sua terceira visita à Inglaterra. Serão cinco dias com todas as honras: quatro noites hospedado no Palácio Real de Buckingham, com direito a cortejo de carruagem. Fernando Henrique, que viaja acompanhado da mulher, Ruth, tentará mostrar que o Brasil é um País economicamente viável e que pode receber mais investimentos ingleses, além dos irrisórios US$ 91 milhões aplicados este ano.
O presidente apelará aos países desenvolvidos que encontrem mecanismo de defesa para que as nações mais pobres não fiquem tão vulneráveis ao capital especulativo, como ocorreu com a crise desencadeada pela queda das bolsas asiáticas. A Inglaterra, que já foi o terceiro investidor no Brasil, hoje é o 12º. Com esta visita, o Brasil vai tentar aumentar a aplicação de capital inglês no País, principalmente nos setores que estão sendo privatizados. Desde o início das privatizações, a Inglaterra comprou apenas 0,02% das ações adquiridas pelos estrangeiros. A participação externa nas privatizações foi de 28,99%.
Para o embaixador brasileiro no Reino Unido, Rubens Barbosa, FHC enfrentará em Londres uma crise de credibilidade. Não do Brasil, especificamente, mas do conjunto de países que o jargão internacional designa como mercados emergentes. Pela listagem da diplomacia norte-americana, o Brasil é um dos 12 BEMs (Big Emerging Markets ou grandes mercados emergentes). O Brasil não é diferenciado dos outros países emergentes e, para todos eles, está tudo parado, admite o embaixador brasileiro.
Apesar disso, FHC tentará fazer um trabalho de convencimento sobre o Brasil. Para intensificar as relações comerciais entre os dois países e ampliar as portas do comércio brasileiro para a União Européia, Fernando Henrique está levando na comitiva o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luiz Carlos Mendonça de Barros, responsável pelo programa de privatização brasileiro. O Brasil quer atrair o capital inglês para investimentos nas áreas de energia elétrica, telecomunicações, construção civil e infra-estrutura.
A comitiva será integrada ainda pelo presidente do Banco Central, Gustavo Franco, que manterá contato com empresários ingleses. Fernando Henrique, Mendonça de Barros e Franco falarão para 250 empresários, na terça-feira, durante o seminário sobre o Brasil promovido pela Confederação da Indústria Britânica. A platéia estará repleta de dirigentes de instituições financeiras de Londres e de empresas britânicas e multinacionais, que atuam nos setores industrial e de serviços.
O presidente terá pelo menos mais duas oportunidades para tratar das relações econômicas entre os dois países. No dia 3 de dezembro, Fernando Henrique se reunirá com os principais executivos de instituições financeiras britânicas quando apresentará algumas das medidas adotadas pelo seu governo para proteger o País da crise das bolsas. Fernando Henrique voltará a falar sobre a evolução da economia brasileira na conversa com o primeiro-ministro inglês Tony Blair, marcada para o dia seguinte.
Fernando Henrique e Blair assinarão um plano de ação conjunta Brasil-Reino Unido, com diretrizes para os próximos dois anos, em diferentes áreas: promoção de comércio e de investimentos; cooperação em questões globais e sistema financeiro internacional; educação; ciência e tecnologia; meio-ambiente; direitos humanos; combate ao narcotráfico, crime internacional e lavagem de dinheiro, além de participações em operações de defesa e manutenção da paz.
Antes de Fernando Henrique apenas o ex-presidente Ernesto Geisel foi recebido em Buckingham como chefe de Estado, há 21 anos. Durante a visita, o presidente e dona Ruth se encontrarão quatro vezes com a Rainha da Inglaterra, Elizabeth II, e haverá lugar na agenda para um chá, com a Rainha-Mãe, em Clarence House.
O presidente receberá dois títulos de doutor honoris causa. O primeiro, em Ciências Econômicas, da Universidade de Londres. O segundo, em Direito, da tradicional Universidade de Cambridge. Para o Itamaraty, o ponto alto da visita será a consolidação de uma relação entre os dois países, demonstrando que o Brasil considera a Inglaterra um parceiro importante e um grande interlocutor brasileiro na Europa.
Esta é a terceira viagem de Fernando Henrique a Londres, após assumir o cargo. O presidente e dona Ruth já estiveram em Londres em maio de 1995, quando assistiram às comemorações oficiais do dia da Vitória dos aliados na Segunda Guerra Mundial. A segunda visita foi em fevereiro deste ano para participar da Conferência sobre América Latina.


