FHC trabalha para recompor base aliada
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sábado, 24 de fevereiro de 2001
Christiane Samarco Agência Estado De Brasília 
O presidente Fernando Henrique Cardoso trabalha o lançamento de um plano de ação governamental para recompor sua base política a partir do debate de projetos para seus dois últimos anos de governo, mas corre o risco de ver sua iniciativa atropelada pelo imobilismo do Congresso. Adversários e aliados do governo e do senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) concordam em pelo menos um ponto: a crise política em torno de ACM deve arrastar-se por todo este primeiro semestre, pondo abaixo a agenda política do governo para 2001.
Depois de uma conversa com Fernando Henrique no final da semana, o líder do PPS no Senado, Paulo Hartung (ES), concluiu que este é o ano de o governo sair da agenda macroeconômica, que passa a idéia de insensibilidade em relação ao Brasil de carne e osso, e evoluir em direção à agenda social e urbana da microeconomia.
Mas tanto a direção do PFL de ACM quanto o próprio Hartung avaliam que o debate em torno de um processo disciplinar contra ACM e sua eventual cassação vão roubar a cena e tomar conta da pauta política dentro e fora do Congresso.
A preocupação com uma nova paralisia do Congresso é grande entre os governistas, até pela expectativa positiva que o novo plano de ação governamental está gerando. O presidente quer fazer o biênio mais produtivo de seus oito anos de mandato, diz o líder do governo no Congresso, Arthur Virgílio Neto (PSDB-AM). Mas é a história recente do Legislativo que dá a medida exata do risco de uma nova crise atropelar a agenda de trabalho dos políticos.
No início do segundo mandato de Fernando Henrique, foram as Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) que investigaram o Judiciário e os bancos que paralisaram o Congresso. A confusão foi tamanha, que nem sequer o projeto que restringe o poder presidencial na edição de Medidas Provisórias, listado como prioridade de todos os partidos, foi votado no ano passado ou na convocação extraordinária de janeiro que recebeu muitas críticas da população.
A investigação de denúncias é o parlamento espetáculo, que lamentavelmente tem sido mais atraente do que o Congresso produtivo, que vota e apresenta resultados, admite Hartung. Mesmo liderando uma bancada de oposição, o senador revela-se disposto a ajudar FHC a enfrentar seu maior desafio: a questão urbana.
Governo e oposição têm muito claro que a crise social tem um componente urbano, até porque 80% dos brasileiros moram em cidades e a grande maioria deles enfrenta problemas de abastecimento de água, coleta e tratamento de esgoto, transporte coletivo, falta de urbanização e de segurança. Parte importante da agenda social do governo depende do Congresso, insiste o líder do PPS, ao lembrar que, para intervir nisto, o Executivo terá que investir pesado em saneamento básico.
O problema é que o País não tem uma política nacional de saneamento, já que só agora o governo resolveu encampar os três projetos que tramitavam no Congresso sobre o assunto e mandou sua proposta a exame dos políticos, em regime de urgência.
A montagem da agenda agora foi possível graças ao cenário internacional favorável, depois de superadas as crises do México, da Ásia e da Rússia e, por último, com o Fundo Monetário Internacional (FMI) fazendo a blindagem temporária da economia argentina. Somou-se a isto a inflação controlada, os juros em baixa, as questões fiscal e monetária bem resolvidas e a arrecadação, e a economia crescendo além do esperado. Foi esta conjuntura favorável que fez com que o governo ousasse propor mudanças pontuais para baratear o custo das exportações, como fez Fernando Henrique, em sua recente viagem à Ásia.


