FHC tenta novo modelo de comunicação
Objetivo é reverter queda na popularidade constatada pelas pesquisas
Agência Estado(Não é permitida a reprodução total ou parcial desta foto dentro ou fora do Brasil)LigeirinhoFernando Henrique e ministros: assessores tiveram apenas três minutos para explicar ações de suas pastas
O presidente Fernando Henrique Cardoso estreiou ontem o modelo de comunicação com o qual pretende reverter a queda na popularidade, com as frases de efeito de sempre, mas, desta vez, amarrando o balanço das ações do governo, que passou a ser feito de forma mais sucinta e direta. ‘‘Fiz esta reunião aberta diante da imprensa e do País, e acho até que seria muito útil se as reuniões frequentemente fossem abertas porque implicam num compromisso, numa conversa direta do governo com o País’’, justificou. Fernando Henrique anunciou a liberação de R$ 600 milhões do Fundo de Amparo ao Trabalhador para financiar a abertura de frentes de trabalho nas regiões atingidas pela seca no Nordeste. (leia sobre este assunto na página 7).
‘‘Eu vou cobrar’’, anunciou, explicando ter apoiado as ações sugeridas pelos assessores ‘‘à condição de que as coisas aconteçam.’’ Na primeira reunião de trabalho totalmente aberta à imprensa na gestão, Fernando Henrique dirigiu-se aos brasileiros e, em especial, aos nordestinos: procurou mostrar a ação do governo, com a liberação de recursos para o combate aos efeitos da seca, e avisou aos subordinados que vai cobrar resultados com maior rigor.
O presidente também voltou a admitir que o governo pode cometer erros. ‘‘Francamente, estamos num momento em que temos de fazer acontecer’’, disse. ‘‘Quando as coisas estiverem erradas, não há que esconder’’, explicou. ‘‘Há que dizer para a gente combater; o ser humano não é perfeito, a máquina burocrática também não e a máquina política, não’’, disse.
A reunião de ontem foi uma das mais curtas realizadas neste governo. O que se esperava de um encontro burocrático e pesado durou apenas 40 minutos, no qual o presidente adotou a linguagem rápida de videoclipe - característica da comunicação do PSDB no horário eleitoral gratuito - para a sala de reuniões, e ao vivo. A sensação era a de que Fernando Henrique seguia, a risca, um roteiro meticulosamente construído.
Entrou na sala de reuniões do Planalto, onde era aguardado por apenas dois ministros e alguns secretários ligados aos programas de combate à seca. Fez uma breve apresentação da reunião, anunciou boas novas - o declínio do fenônemo El Ni¤o - e imprimiu o ritmo do trabalho. ‘‘Peço aos senhores um balanço das ações feito de forma sucinta; cada um terá três minutos’’, informou.
Como um apresentador de programas de entrevistas, o presidente questionou os colaboradores e fez intervenções, dando o recado do governo. O primeiro a falar foi o superintendente da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), Sérgio Moreira, principal responsável pelas ações de combate à seca, que fez um relatório otimista sobre o que foi feito.
Em seguida, Fernando Henrique provocou o presidente do Banco do Nordeste, Antônio Arnaldo de Menezes. ‘‘Eu liberei 450 milhões para que o banco pudesse atender à população necessitada; o dinheiro está chegando na mão de quem precisa ou ficou no meu decreto?.’’ Menezes, rapidamente, listou o volume de recursos repassados - R$ 51,3 milhões - e garantiu: ‘‘Azeitamos a máquina nas duas primeiras semanas e, a partir de segunda-feira, as operações avançarão com maior velocidade.’’
Fernando Henrique deu a palavra a outros quatro interlocutores. ‘‘Ministro (Gustavo) Krause, a quantas andamos com os recursos hídricos?’’, perguntou o presidente, ouvindo o mais longo relato. ‘‘Ministro Jungmann, o que a reforma agrária pode fazer pela seca?’’, emendou. Entre um depoimento e outro, o presidente fazia uma síntese da ação do governo naquele setor, com recados para a população.
‘‘Desta forma, a população nordestina e brasileira fica sabendo que muita coisa está sendo feita’’, afirmou, ressaltando saber que estas ações não servem de ‘‘consolo’’ para os flagelados da seca. ‘‘Eu quero deixar claro que a população do Nordeste não está sozinha; nós temos um compromisso’’, disse, frisando que ‘‘nenhum outro presidente visitou o Nordeste tantas vezes’’ quanto ele.
Fernando Henrique voltou ontem a condenar os saques e a defender o projeto de transposição do Rio São Francisco como solução estrutural para o problema da seca no Nordeste. Em resposta aos adversários, explicou que a obra é complexa e demanda cuidados preliminares para a execução. ‘‘Não estamos deixando de lado e, se não foi feito antes, é porque não há definições técnicas adequadas’’, explicou. ‘‘Um governo sério e responsável não faz uma coisa dessas por demagogia, sem ter certeza.’’ (AE)

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