O presidente Fernando Henrique Cardoso está trabalhando nos bastidores para manter unida a base aliada. Uma das recomendações aos ministros é para que não se envolvam na disputa pela sucessão na Câmara e no Senado. Fernando Henrique também não fala sobre o assunto, mas mandou dizer aos líderes do PFL, PMDB e PSDB que não aceitará alianças com partidos de oposição. ‘‘A aliança com a oposição significará rompimento com o governo’’, avisou Fernando Henrique a vários interlocutores.
O recado tem alvo certo: as articulações de setores do PFL e do PSDB com o PT, para apoiar seus respectivos candidatos (Inocêncio Oliveira e Aécio Neves) na disputa pela presidência da Câmara; e também evitar o apoio ao candidato das oposições à presidência do Senado, Jefferson Peres (PDT-AM). Ontem, a própria governadora do Maranhão, Roseana Sarney (PFL), entrou em campo e trabalhou diretamente na cooptação de votos de oposicionistas para Inocêncio.
O presidente avisou que a aliança com a oposição implicará na perda de cargos na administração federal. ‘‘O princípio vale para todos os candidatos, inclusive o Aécio (do mesmo partido do presidente)’’, disse um palaciano. Os articuladores políticos do governo tentam preservar o presidente de eventuais desgastes, sob o argumento de que a questão é pertinente ao Legislativo e não contou com a participação de Fernando Henrique para chegar ao nível de deterioração atual. ‘‘O presidente só interviria em caso extremo, se tivesse uma alternativa de solução, que não existe’’, disse um ministro que esteve ontem com Fernando Henrique.
O Palácio do Planalto acredita numa acomodação dos partidos e na preservação da aliança. Para isso, o ideal seria que Inocêncio vencesse a disputa na Câmara, na votação contra Aécio. Ministros e articuladores políticos do tucanato, ligados ao Planalto, estão fora da candidatura Aécio, por considerá-la um complicador do quadro político. Para o presidente, é mais fácil acomodar Aécio em algum cargo federal, dando-lhe experiência administrativa, do que recompor um PFL enfraquecido com a eventual derrota de Inocêncio Oliveira.
Na avaliação dos articuladores políticos do governo, mesmo que Inocêncio perca a eleição para a presidência da Câmara, isso não mudaria muito a relação do Planalto com o PFL. A avaliação que predomina neste setor é de que, seguindo sua tradição histórica, os pefelistas jamais abandonarão o poder, mesmo que segmentos do partido – liderados por ACM e pelo próprio Inocêncio – venham a preferir uma posição de independência. ‘‘Não se pode confundir o PFL com o ACM ou o Inocêncio’’, frisou o interlocutor de Fernando Henrique.
A disputa já tem provocado fortes estragos. Ontem, com a ajuda do PFL, a oposição derrubou uma medida provisória que previa o pagamento de salários aos servidores do Executivo até o dia 5 do mês seguinte. Com a rejeição, o pagamento volta a ser feito dentro do próprio mês. Assim, o pagamento de dezembro deste ano, que seria feito em janeiro de 2002, volta para 2001. O governo, então, terá que desembolsar mais R$ 3 bilhões.

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