O presidente Fernando Henrique Cardoso reuniu ministros e líderes partidários, nos últimos dias, e assumiu o comando da operação para barrar a comissão parlamentar de inquérito (CPI) ampla, destinada a apurar denúncias de corrupção no País. Mas a semana começa com o sinal de alerta aceso. Os líderes aliados tiveram que montar uma ofensiva de emergência na última sexta-feira, para brecar os dissidentes do Senado que, entre promessas e apoios dados, atingiram a conta perigosa dos 25 votos, quando bastam 27 para garantir a instalação da CPI. Pior: o senador Osmar Dias (PSDB-PR) prometeu aos líderes do bloco de oposição que, se conseguissem reunir 26 assinaturas no requerimento da CPI, ele daria a 27ª para garantir o inquérito.
‘‘Estou no meu limite físico’’, confidenciou o presidente a um interlocutor, queixando-se da tensão da semana e de estar se sentindo só. É certo que a temperatura até baixou, depois da quarta-feira nervosa em que o presidente do Senado, Jader Barbalho (PA), anunciou que assinaria o requerimento da CPI. O governo agiu rápido naquela tarde e conseguiu evitar o ‘‘efeito manada’’, com todos os peemedebistas seguindo o presidente do partido. Mas até Fernando Henrique experimentou a dificuldade de administrar a dissidência a conta-gotas, ao constatar que deram em nada os telefonemas aos senadores do PMDB, com ponderações contra a CPI.
Os argumentos do presidente e de seus aliados, contra a abertura de uma investigação, vão da crise econômica que ronda a vizinha Argentina, ao desastre da ‘‘falsa impressão de mar de lama’’, manchando a imagem do Brasil no exterior. Protestam, também, contra ‘‘as inconstitucionalidades’’ de se propor um inquérito que mais parece um ‘‘armarinho’’ que vende de tudo, inclusive acusações vagas, quando se exige um fato determinado para abrir uma CPI. Até ameaças de cortes de verbas foram lançadas para persuadir a dissidência. Mas se a conversa do presidente foi boa, o efeito prático foi nulo: o senador José Fogaça (PMDB-RS) não retirou sua assinatura e o senador José Alencar (PMDB-MG) concretizou sua promessa de apoio, assinando o requerimento no fim da semana, antes de viajar para Minas.
Somados os dois peemedebistas aos senadores do PT, PDT, PSB e PPS, a conta pró-CPI chega a 18 votos. Mas também já assinaram o requerimento os senadores Pedro Simon (PMDB-RS) e Maguito Vilela (PMDB-GO) – além de Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) e Jader Barbalho. Ligado a ACM, o ex-ministro da Previdência Waldeck Ornélas (PFL-BA) já reiterou que sua assinatura é garantida, assim como a de Roberto Requião (PMDB-PR), que passou a semana nos Estados Unidos. A contabilidade perigosa dos 26 votos com que sonham os partidos de oposição inclui os senadores Amir Lando (PMDB-RO) e Ramez Tebet (PMDB-MS).
Não é por acaso que a crise se agravou tanto. Os próprios aliados apontam falhas do Palácio do Planalto na avaliação da dimensão da crise e na coordenação política do governo, que teria deixado o presidente exposto demais. ‘‘Fernando Henrique acabou tendo que ir para o front de batalha, porque seu gabinete político, que tem que operar como escudo de proteção, não funcionou’’, diz um líder aliado com trânsito no gabinete presidencial.
Mais do que isto, muitos avaliam que a coordenação política não conseguiu se impor diante da base, o que deveria ocorrer não só por respeito aos operadores do governo, mas sobretudo pelo temor dos resultados de uma traição. ‘‘O governo não foi pedagógico porque não mostrou suas garras’’, completa o líder, convencido de que o Planalto, em que se inclui o próprio presidente, portou-se com hesitação diante das ‘‘peripécias’’ de ACM e Jader. ‘‘O que saiu do governo foi a lição equivocada de que vale a chantagem no jogo político’’, disse o interlocutor presidencial. (Colaborou Sílvia Faria)

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