O presidente Fernando Henrique Cardoso condenou ontem a atitude do ex-presidente do Banco Central Francisco Lopes, que se recusou a assinar o termo de compromisso da CPI dos Bancos, o que impediu seu depoimento aos parlamentares. ‘‘O presidente esperava que o sr. Francisco Lopes prestasse contas ao País de seus atos, como agente público’’, afirmou o presidente, por intermédio de seu porta-voz-adjunto, Georges Lamaziere, ao acrescentar que Lopes ‘‘deixou de cumprir com essa obrigação hoje perante o Senado Federal’’. ‘‘A solidez das instituições democráticas do País assegura a plena apuração dos fatos’’, disse o presidente.
Segundo o presidente do Congresso, senador Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA), que telefonou para o presidente para relatar o episódio, FHC se disse surpreso e decepcionado com o comportamento de Chico Lopes.
Fernando Henrique ficou surpreso com a atitude de Francisco Lopes, principalmente porque esperava que ele repetisse, no Senado, os argumentos que apresentou a ele, por telefone, na semana passada, quando se convenceu da inocência do ex-presidente do BC. Embora reconheça que, do ponto de vista pessoal, os advogados tenham agido de forma correta, o presidente considerou ‘‘um fiasco’’ a postura de Lopes para a imagem do governo e da instituição.
O presidente, que havia elogiado a integridade de Lopes na Europa e condenado a ação do Ministério Público, que invadiu a casa do economista, insistiu na necessidade de transparência no caso e está convencido de que ontem o ex-diretor de Fiscalização do banco, Cláudio Mauch, apresentará a defesa do BC. Embora não admita que Mauch possa repetir o que fez Lopes, o presidente está convencido de que o Banco Central deve explicações à população. ‘‘Alguém tem que falar’’, afirmou o presidente a assessores.
Mas, no governo, há quem ache que a CPI extrapolou nas suas funções, sob a alegação de que não poderia ter dado voz de prisão para Francisco Lopes, nem obrigá-lo a depor contra si mesmo. Por isso, a área jurídica do governo poderá abrir três frentes de ação: votar projeto da Lei Orgânica do Ministério Público, fixando em lei os poderes e limites da instituição; votar a nova Lei de imprensa, já que considera que, em qualquer País do mundo, as acusações da imprensa já teriam levado a processos e votar o projeto de quarentena dos dirigentes do BC.
O presidente dedicou o dia a articulações políticas. Pela manhã, no Palácio da Alvorada, se reuniu com o novo assessor especial, ex-deputado Moreira Franco, conversou com o ministro das Comunicações e articulador político do governo, Pimenta da Veiga, almoçou com o ministro da Saúde, José Serra e se reuniu com o presidente do PMDB e mentor da CPI dos Bancos, senador Jáder Barbalho.
Na hora da prisão de Chico Lopes, de acordo com auxiliares, o presidente estava recebendo o presidente mundial da Alstom, empresa francesa que atua no setor de geração, transmissão e distribuição de energia, Pierre Bilger. Assim que eles saíram, os assessores informaram o presidente da prisão de Lopes. Em seguida, o presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães, telefonou para Fernando Henrique, e tiveram uma rápida conversa. O presidente demostrou a sua indignação com a postura de Lopes e reiterou que ele era um agente público e que homens públicos devem explicações à sociedade.

mockup