A festa de aniversário do deputado Franco Montoro (PSDB-SP), anteontem à noite em Brasília, revelou o desconforto que as declarações do ministro das Comunicações, Sérgio Motta, sobre a atuação do presidente do Banco Central, Gustavo Franco, provocaram no governo. O presidente Fernando Henrique Cardoso chegou tarde à festa em comemoração aos 81 anos do fundador do PSDB, permanecendo no local por pouco mais de meia hora. O presidente ficou distante de Motta, que condenou a utilização dos recursos da privatização apenas para amortizar a dívida interna e criticou Gustavo Franco, por defender o afastamento do Estado dos programas de desenvolvimento econômico. Motta também não escondia sua irritação, negando as declarações atribuídas a ele e esquivando-se dos jornalistas.
Na mesa em que se sentou com os parlamentares e ministros, o presidente ouviu a queixa do líder do PFL, deputado Inocêncio Oliveira (PE). ‘‘Já perdi mais de 15 quilos em dois meses e estou muito cansado’’, disse. ‘‘Eu estou estressado’’, reforçou o secretário-geral do PSDB, Arthur Virgílio (AM). Fernando Henrique concordou com os dois e confessou também estar muito cansado. O jantar, em uma mansão do Lago Sul, reuniu cerca de 160 políticos de diversos partidos. Além dos tucanos, estiveram presentes caciques do PMDB como o ex-presidente José Sarney (AM) e o senador Jáder Barbalho (PA) e líderes do PFL, como o senador Élcio Álvares (ES).
Em seu discurso, o homenageado defendeu uma nova campanha - pelo presidencialismo-parlamentarista - e a necessidade de uma clara política de emprego. Fernando Henrique não ouviu os discursos, porque chegou após as homenagens e o jantar. O presidente só participou do parabéns e comeu o primeiro pedaço de bolo oferecido por Montoro. Depois, brindou com os convidados e pegou o microfone para homenagear o amigo. Na saída, lembrou que sempre defendeu o parlamentarismo.
A maior parte do tempo que ficou na festa, no entanto, o presidente teve que tratar de temas que estão na agenda do governo, como aprovação do Fundo de Estabilização Fiscal (FEF) e reforma da Previdência. O ministro da Saúde, Carlos Albuquerque, sentou-se ao lado do presidente e pediu recursos da privatização para o programa de atendimento pré-hospitalar, que custa R$ 180 milhões. Fernando Henrique, sem dizer que já havia resolvido destinar todo o dinheiro das privatizações para abater a dívida - decisão anunciada ontem no Palácio do Planalto -, respondeu que a idéia era boa e que ia pensar no assunto.
O senador Teotônio Vilela Filho (AL) aproveitou para conversar com o presidente, pela quarta vez naquele dia, sobre a gravidade da situação de Alagoas. Fernando Henrique disse que estava o preocupado e que já havia pedido ‘‘celeridade’’ à área econômica na solução do problema do Estado, que era o ‘‘mais crítico’’ do País.
Sérgio Motta, embora estivesse na mesma mesa que o presidente, ficou distante dele e os dois mal se cumprimentaram.

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