O presidente Fernando Henrique reagiu ontem com indignação à notícia da apreensão de documentos no apartamento do ex-presidente do Banco Central, Francisco Lopes, feita pelo Ministério Público e a Polícia Federal com a autorização da Justiça. FHC disse que nesse caso a Justiça excedeu os limites do bom senso e classificou a atitude como sendo um arbítrio. ‘‘Trata-se de uma ação que extrapolou os limites do bom senso, embora tenha base legal’’, disse o presidente no início da tarde de ontem, em Lisboa, depois do 4º Encontro de Cúpula Bilateral, com o primeiro-ministro português António Guterres.
‘‘Não existe nada que justifique essa ação; espero que a opinião pública brasileira repudie a volta do arbítrio’’, desabafou o presidente Fernando Henrique. ‘‘O arbítrio às vezes existe por parte daqueles que devem coibi-lo e parece que estamos nesse caso’’, disparou. Ele não escondeu o desconforto em relação a esse caso envolvendo um ex-integrante do governo. ‘‘Eu lutei muito contra o regime arbitrário, fui vítima dele e acho que é preciso respeitar o estado de direito’’, cobrou o presidente.
Segundo ele, não existe nenhum motivo que justifique a determinação da Justiça. ‘‘Acho grave que no estado de direito, aqueles que são os detentores do poder legal para decisões dessa natureza não reflitam mais antes de tomar decisões desse tipo, até porque não existe um motivo que pelo menos tivesse sido trazido ao conhecimento público para esse tipo de ação’’, criticou. As declarações do presidente foram endossadas pelo ministro das Comunicações, Pimenta da Veiga, que acompanha Fernando Henrique em Lisboa. ‘‘Esse é um lamentável e desnecessário constrangimento’’, avaliou Pimenta.
Para FHC, não houve bom senso na decisão da juíza Ana Paula Vieira de Carvalho, da 6ª Vara Federal que concedeu o mandato de busca e apreensão de documentos contábeis e fiscais na residência de Francisco Lopes. ‘‘Como democrata que sou, eu respeito a lei, mas acho que quem tem o poder - e o poder máximo no Executivo tenho eu - deve se conter nos limites não só da lei, mas também do bom senso, e não creio que nesse caso tenha havido um bom senso.’’
O presidente Fernando Henrique demonstrou estar incomodado com o destaque dado na imprensa com as notícias relacionadas com a CPI que investiga irregularidades no sistema financeiro. ‘‘Acho lamentável isso acontecer porque é um caso que precisa ser apurado, discutido e resolvido’’, ponderou. ‘‘O povo brasileiro não está esperando isso dos seus dirigentes, mas sim que nós ofereçamos mais trabalho, que nós criemos condições de desenvolvimento econômico, para que haja enfim maior bem-estar da sociedade’’, disse.
Para ele está havendo uma exploração ‘‘escandalosa’’ do assunto. ‘‘Está havendo uma exploração escandalosa, de um problema que pode ser real ou não, já que nem isso se sabe’’, comentou FHC, sobre o favorecimento do Banco Central aos bancos Marka e FonteCidam, durante a desvalorização do real. ‘‘De modo que eu creio que passado esse momento que pode inflamar certos corações e mentes, se volte a uma situação de equilíbrio’’, apostou FHC. Já o ministro Pimenta da Veiga avaliou que a CPI está fora de controle. ‘‘CPI não se controla; tinham que ter pensado isso antes de criá-la’’, lamentou Pimenta.

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