FHC reclama da mídia irresponsável
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quinta-feira, 26 de novembro de 1998
Agência Estado 
Indignado com os vazamentos de informações obtidas por meio de gravações clandestinas e de falsos dossiês que paralisaram o governo nas últimas três semanas e resultaram na demissão de quatro de seus homens de confiança, o presidente Fernando Henrique acusou ontem a mídia de usar sem responsabilidade o poder que possui. Ressalvando que não estava pregando censura aos meios de comunicação, mas uma regulamentação do setor, FHC defendeu que os partidos políticos discutam abertamente com a opinião pública e com os formadores de opinião o que pode e o que não pode (ser divulgado).
Os formadores de opinião pública muitas vezes se arrogam poder absoluto de ser juízes, sem que o povo os tenham legitimado para isso, afirmou FHC na abertura da Conferência Brasil 2020, no Centro de Treinamento do Banco do Brasil, em Brasília, no qual pregou ainda uma ampla reforma política. Segundo ele, os que manipulam a mídia, no bom sentido, não sabem o poder que têm ou, às vezes, se sabem, não têm consigo a responsabilidade do poder que têm. E prosseguiu: É como se não tivessem poder, como se fossem neutros; não são neutros; nada é neutro nesse mundo político.
O tema do encontro era reforma política, mas ao defender a tese de financiamento público parcial das campanhas - FHC, sem citar denúncias, disse: Temos que desnudar a questão do custo político porque senão aparecerá como forma de escândalo verdadeiros ou fabricados. Depois, acrescentou que tem mais medo dos escândalos fabricados do que dos verdadeiros. Estamos sendo vítimas, a todo instante, de escândalos fabricados, criticou ele, acentuando que os verdadeiros escandalosos são os que fazem o escândalo e não a quem se atribui o escândalo. Isso tem que ser discutido com firmeza, completou.
O presidente classificou como voto parlamentar selvagem o atual sistema de representatividade dos deputados no Congresso. É preciso fazer o voto civilizado, disse ele, defendendo o voto distrital, fidelidade partidária e a cláusula de desempenho, que impediria os partidos que não tem voto de se beneficiar de recursos institucionais.
Para o presidente, a reforma política tem de entrar na agenda de reformas do Brasil. Mas ele acha que esta é uma matéria que requer participação ativa do Congresso e da sociedade.
FHC aproveitou ainda para criticar a união de parlamentares em torno de interesses corporativistas. Ele considera o lobby legítimo mas adverte para o risco do Congresso se transformar num conjunto de lobbies. Lobby não é partido, não defende interesses gerais, projetos para o País, disse ele, citando a bancada ruralista, e as recém-formadas bancadas da pequena empresa e frente pró-livre mercado. O que é isso? Para o governo discutir com cada um?, ironizou, já reconhecendo que será criticado por esta observação. Você pode até ter grupos técnicos, mas é preciso ter partidos.
O presidente condenou também a complexidade e a burocracia que envolvem as votações no Congresso. Citando a existência, por exemplo, de quórum diferenciado para determinadas votações, ele falou das dificuldades que o ministro da Fazenda, Pedro Malan, enfrenta no exterior para explicar a demora na aprovação do ajuste fiscal.
Arabescos parlamentares que complicam muito o diálogo do parlamentar com o homem comum, comentou. Ele criticou o excesso de líderes existentes no Congresso, que acaba entorpecendo o processo legislativo. Só na Câmara, lembrou, existem 12 líderes, alguns que lideram bancadas com apenas um deputado. E você tem de ouvir a todos, declarou ironizando. Isso não existe; é a marcha da insensatez; é a falta de coragem da maioria para tomar decisões.
Segundo FHC, os partidos não têm a sensibilidade para entender que não só eles, mas a sociedade organizada, como igrejas, sindicatos, lobbies, empresas e a mídia participam legitimamente da vida política do País.
Os partidos, muitas vezes, têm a ilusão de que basta ter acesso àquelas maquininhas de televisão para conseguir o que desejam, argumentou. Acho aquela maquininha terrível: assim como ela faz com que se consiga, ela pode liquidar na hora também, dependendo de fatores que não são racionais. E acrescentou: Não é o que é dito, às vezes não é o que não foi dito, às vezes é um longo silêncio, às vezes é uma dúvida momentânea.


