O presidente Fernando Henrique Cardoso voltou a defender a cassação do mandato do deputado mineiro Sérgio Naya ao receber ontem comissão de ex-moradores do prédio Palace 2 que desabou no Rio de Janeiro há dez dias. ‘‘Tão grave quanto utilizar este tipo de material criminoso (na construção do prédio) é fazer declarações irresponsáveis’’, disse o presidente. ‘‘Quem as faz não pode estar entre os que julgam o destino de seu País.
Fernando Henrique estava se referindo às declarações de Naya, registradas em uma fita de vídeo, nas quais o deputado afirma ter falsificado a assinatura de um governador mineiro e usar material de segunda categoria nos prédios que constrói. O presidente cobrou uma ação enérgica e eficaz do Ministério Público do Rio e dos demais orgãos de fiscalização para a punição dos culpados pela tragédia. ‘‘A impunidade é a palavra que expressa o sentimento dos brasileiros’’, afirmou.
Durante a rápida cerimônia, na sala de audiência do gabinete presidencial, o físico Afonso Ferrario, ds 50 anos, entregou pedaço do concreto do pilar central do prédio ao presidente. ‘‘Estou muito machucado, zeraram as nossas vidas por irresponsabilidade’’, disse. Ele sugeriu que o Planalto fizesse uma perícia. ‘‘Eu não preciso fazer nenhum exame do material: o maior exame é verificar, como o Brasil todo viu, um prédio se desfazendo’’, respondeu o presidente que classificou o desabamento do prédio no Rio como uma ‘‘vergonha’’.
Pedido Osvaldo Benavides, pai de uma das vítimas que morreram soterradas no desabamento e síndico do Palace 2, estava abalado. Outro proprietário, Sérgio Ricardo de Almeida, pediu ao presidente que a Caixa Econômica Federal (CEF) financie a compra de novos imóveis, colocando como devedor o deputado Naya. ‘‘Se tivermos que arcar com as prestações, além de sem teto nos tornaremos inadimplentes’’, argumentou.
Fernando Henrique disse que isso não é possível. ‘‘Não creio que a Caixa, sem um documento legal, possa responsabilizar outros, que não os beneficiários diretos pelos créditos’’, ponderou o presidente. ‘‘Mas o governo apoiará ações parlamentares que viabilizem uma solução na direção que foi aqui sugerida.’ Para o presidente, ‘‘embora não se possa reconstruir o que se perde na memória, na emoção e muito menos os que perdem familiares’’ é preciso fazer uma ‘‘reparação àqueles que foram vítimas deste tipo de desonestidade’’.

mockup