Agência EstadoBuscando aliadosO vice Marco Maciel, Cardoso e o governador de Pernambuco, Miguel Arraes que é contra a reeleição: apelo pela união

Cansado das pressões dos senadores do PMDB para adiar a votação da emenda da reeleição, o presidente Fernando Henrique Cardoso bateu o martelo e garantiu ontem que não recuará no calendário. ‘‘Vamos votar no dia 29’’, disse em conversa com um grupo de parlamentares que o acompanhou em sua viagem a Pernambuco. Fernando Henrique deixou claro que não pretende mais ceder aos rebeldes: ‘‘Quero saber é de quem está do lado do governo’’.
Aos dois senadores e 13 deputados pernambucanos convidados para integrar sua comitiva, entre eles dois peemedebistas fiéis, Fernando Henrique reclamou a bordo do avião. ‘‘Eu já dei todos os prazos possíveis ao PMDB e abro o jornal no dia seguinte para ler que ‘o governo recua’’’, comentou. ‘‘Isto enfraquece o governo, não posso fazer isto’’, disse aos parlamentares.
Na comitiva estavam deputados do PFL, entre eles o presidente do partido, José Jorge (PE), e o líder na Câmara, Inocêncio Oliveira (PE); do PSDB; PMDB; PSB e os senadores Carlos Wilson (PSDB) e Roberto Freire (PPS). Numa demonstração da tática que o governo vem adotando para conquistar votos em favor da reeleição, Fernando Henrique conversou separadamente com as bancadas, durante o vôo e obteve o apoio explícito de dois deputados do PSB, João Colaço e Gonzaga Patriota, embora o cacique do partido, o governador pernambucano Miguel Arraes, seja contrário à reeleição.
O voto de Gonzaga Patriota, até então indeciso, foi trocado pelo anúncio que Fernando Henrique fez em Recife da garantia de R$ 270 milhões para a retomada das obras da ferrovia transnordestina. ‘‘Meu voto não vai ser meu, vai ser da transnordestina’’, vangloriou-se o deputado após o discurso do presidente. Os aliados do governo contabilizavam ontem 326 votos favoráveis à reeleição. O líder Inocêncio Oliveira falava em número maior. ‘‘Ontem (quinta-feira) fizemos uma avaliação com a base de sustentação e concluímos que já temos mais do que isto’’.
A margem de segurança mínima para que o governo coloque a emenda em votação na quarta-feira é de 330 votos, segundo Inocêncio. Ou seja, 22 a mais do que os 308 necessários para aprovar uma emenda constitucional em plenário. Os pefelistas e tucanos apostavam que o líder do PMDB, Michel Temer (SP), pode levar cerca de 60 votos para o placar do governo. ‘‘Anteontem (quinta) ele já tinha mais de 50’’, afirmou Inocêncio. O compromisso de Temer de obter os votos foi o meio encontrado pelo líder para salvar sua candidatura à presidência da Câmara da ameaça imposta pelo PFL e PSDB de retirar o apoio das duas bancadas.

Patriota promete
voto em troca da
retomada das obras
da Transnordestina


Em terra firme, Fernando Henrique se concentrou na divulgação dos programas sociais de seu governo e dos projetos de retomada de obras paradas no Nordeste. Acompanhado de cinco ministros e do vice-presidente Marco Maciel, o presidente teve a conivência do governador Miguel Arraes, que deixou de lado as críticas à reeleição e elogiou os programas do governo federal na região.
Ao encerrar seu discurso no Engenho Massangana, onde lançou o programa de erradicação da exploração infantil nos canaviais da Zona da Mata de Pernambuco, o presidente afirmou: ‘‘Hoje nós estamos de mãos dadas, mesmo que as mãos às vezes não se cruzem, lá no infinito elas vão se juntar, porque o povo vai dizer: é este o caminho’’. E emendou, sugerindo sua permanência no governo: ‘‘Só juntos podemos mudar o Brasil e nós estaremos juntos para mudar o Brasil.’’ À imprensa, Fernando Henrique limitou-se a repetir a frase: ‘‘Estou confiante no povo’’.
Este é o lema ao qual se apegaram os aliados do PFL e PSDB para afastar a idéia de um referendo popular. ‘‘Agora estamos concentrados na votação no Congresso’’, confirmou o deputado Mendonça Filho (PFL-PE), autor da emenda de reeleição. ‘‘Não se fala em referendo’’, emendou o senador Carlos Wilson. No meio de seus colegas pernambucanos, o senador Roberto Freire era a voz isolada em defesa do referendo.
Enquanto o governo aposta nos votos do Congresso para aprovar a emenda, está descartada a idéia de uma consulta popular, seja referendo ou plebiscito. O líder pefelista concluiu, depois de combater a vinculação imediata da emenda da reeleição a uma reforma política como propõe o PMDB: ‘‘No momento, o PFL é contra o referendo e não há compromisso da base aliada com a tese, as pesquisas mostram que o povo já decidiu pela reeleição’’.

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