A menos de dois anos para concluir o seu mandato, o presidente Fernando Henrique Cardoso avisou ontem que ainda tem muito tempo para o final de seu governo e que, nesse período, vai fazer a reforma tributária, além da política, judiciária e trabalhista. ‘‘Quem imaginar que eu não vou mexer na reforma tributária está enganado’’, disse, em entrevista coletiva, durante o trajeto de sete horas entre Seul, na Coréia, e Bali, na Indonésia.
Para aprovar as reformas, Fernando Henrique disse que espera contar com a colaboração não só da base aliada como da oposição, que começa a entender as dificuldades do governo por ter assumido o comando de ‘‘alguns lugares mais complexos’’. ‘‘É preciso que a oposição também entenda o que está acontecendo no mundo’’, ressaltou, certo de que com as novas experiências administrativas a oposição entenderá que ‘‘não há mais possibilidade de insistir em um País, num Estado, numa prefeitura que não olhe para o equilíbrio fiscal’’. ‘‘Não é o FMI, não é o arrocho, é a necessidade de colocar o País em condições de crescer, portanto de criar emprego, se desenvolver’’, afirmou.
O presidente criticou ainda setores da sociedade que reagem às mudanças feitas pelo governo que, segundo constatou, não estão localizados apenas na oposição. ‘‘Quantas vezes não se vê no Brasil críticas ao que está sendo feito para avançar, como se fosse para desmontar. Isso é normal nos processos de mudança. O problema é que você tem de manter a liderança, não ficar tremendo porque a popularidade cai. Não ficar dando atenção ao primeiro que grita no Congresso’’, afirmou.
Mais uma vez, cobrou apoio e mais defesa para o governo dos partidos da base aliada. ‘‘Os partidos que apóiam o governo têm de saber que nós estamos reformando o Brasil para avançar, têm de defender com ênfase que é progressista o que nós estamos fazendo, que é bom para o povo brasileiro’’, resumiu.
O presidente, que desembarcou em Bali, uma ilha paradisíaca da Indonésia, para passar o final de semana em um hotel luxuosíssimo, reagiu às críticas de que iria descansar. ‘‘Isso é outra coisa que é preciso acabar no Brasil, essa mentalidade atrasada de que o presidente vai passear. Vocês andam comigo, sabem que eu estou trabalhando pelo Brasil e nem vejo nada’’, desabafou FHC, que aproveitou para dizer que duvida que as praias de Bali sejam mais bonitas que as do Rio de Janeiro. Ao desembarcar, ele recebeu um colar de flores frescas, em estilo havaiano.
O presidente Fernando Henrique informou que conversou ontem por telefone com o presidente do Chile, Ricardo Lagos, e que ele não falara sobre a antecipação de criação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) para 2003 ou 2004. ‘‘Mas o Chile tem uma posição favorável a isso’’, observou. FHC lembrou, entretanto, que o Brasil é o país mais industrializado da região e que teria mais problemas para fazer os acordos internacionais. Mas, voltou a alertar: ‘‘Não é uma questão de governo só. O empresariado brasileiro tem de definir caso a caso, ramo a ramo, onde é que o calo pega. Onde dá para avançar, o que precisa fazer para que se possa competir. Que vai ter de abrir mercado, vai’’.
Ainda em relação à Alca, o presidente questionou o fato de os Estados Unidos não terem se pronunciado sobre a eventual antecipação. ‘‘A administração Bush propôs alguma coisa? Por enquanto, estamos de oferecidos nisso. O Brasil nunca assume posição de oferecido, mas espera para analisar porque nós temos muitos interesses para pesar. Antecipar por antecipar é complicado’’, reforçou.

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