O presidente Fernando Henrique Cardoso desembarcou na noite de ontem em Londres, para uma visita em que tentará convencer os investidores estrangeiros que o Brasil é diferente do bolo de países ditos emergentes, postos todos sob suspeição a partir da crise asiática. Com toda a sutileza que a diplomacia exige, FHC dirá que as providências tomadas pelo governo brasileiro na esteira da crise foram, primeiro, em tempo hábil e, segundo, duras o suficiente para assegurar a defesa do essencial, que é impedir uma desordenada desvalorização do real.
Do ponto de vista dos investidores, o importante não é o fato de haver ou não modificações no pacote fiscal de R$ 20 bilhões anunciado pelo governo há duas semanas. O fundamental é que, entre aumento de receitas e cortes de gastos, o governo de fato chegue a um resultado final de R$ 20 bilhões, o equivalente a cerca de 2,5% do PIB (Produto Interno Bruto).
É essa a garantia que FHC pretende dar nos três contatos com o empresariado britânico que terá em Londres. Com o pacote fiscal, elimina-se um dos dois déficits (o fiscal) que levam os investidores a desconfiar de uma economia. Falta encaminhar o outro (o das contas externas). A mensagem presidencial destina-se também a atacar esse ponto. Ou seja, convencer os investidores em ações e títulos brasileiros em geral a continuarem a colocar seu dinheiro no país, superando a paralisia de que são vítimas, indistintamente, os países ditos emergentes. A entrada desses recursos permite, como é óbvio, financiar o buraco nas contas com o exterior.
A comparação com a Ásia, por sutil que seja, é fácil de explicar: em março deste ano, do fluxo total de investimentos financeiros (em papéis em geral) nos mercados emergentes, a Ásia ficava com a maior fatia (43%). A América Latina abocanhava 35% e o Leste Europeu outros 22%. Com a crise asiática, em outubro, a América Latina já ficava em primeiro lugar, com um ligeiro aumento (para 38%), enquanto a Ásia caía (para 29%).
Os cálculos são da Fleming Research, uma corretora de valores cujo principal executivo, John Manser, será um dos interlocutores de FHC amanhã. Ao todo, o presidente receberá cerca de 20 executivos de empresas financeiras. A expectativa do governo brasileiro é a de que os investidores, em vez de brecar seus investimentos em todos os mercados emergentes, continuem a desviar recursos da Ásia para a América Latina. Ainda mais que 40% dos investimentos que se dirigem para a América Latina vão para o Brasil.
Direitos humanos Organizações não-governamentais britânicas aproveitam a visita do presidente Fernando Henrique Cardoso para divulgar problemas sociais do Brasil. Um grupo de ONGs planeja fazer amanhã uma manifestação por melhorias nos direitos humanos no país. Para defender direitos de índios, sem-terra e das classes desfavorecidas, as entidades usam a mesma estratégia de quando criticam o governo brasileiro. Todas dizem que o Brasil tem uma política ‘‘para inglês ver’’, ou seja, não aplica na prática as decisões que anuncia.
Fiona Macaulay, 34, pesquisadora para o Brasil da Anistia Internacional - que divulgou nota ontem cobrando o governo brasileiro -, disse que a falta de um orçamento específico para programas de direitos humanos contradiz projetos do governo. ‘‘O que o governo anuncia não é o que as pessoas vêem nas ruas. A polícia continua matando, a violência no campo não acabou. A Survival International anunciou ontem que o Conselho Indígena de Roraima enviou carta à rainha da Inglaterra, Elizabeth II, dizendo que os índios da área Raposa-Serra do Sol estão sendo ‘‘massacrados por invasores’’.

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