O presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou ontem, na abertura da Cúpula de Brasília, que reúne 12 presidentes sul-americanos, que os países da América do Sul ‘‘devem ousar’’ para enfrentar os desafios da globalização. Ele estabeleceu a data do fim de seu mandato como prazo limite para que o Mercosul e a Comunidade Andina concluam o processo de integração, que só agora está dando seus primeiros passos. ‘‘No mais tardar, até janeiro de 2002’’, afirmou.
Para o presidente, os 12 países do continente, representados no encontro pelos seus presidentes, devem participar ativamente dos núcleos mundiais de decisão, nos quais se organiza a arquitetura financeira internacional. ‘‘Não queremos apenas ser informados das decisões do G-7 ou do G-8’’, afirmou o presidente, em referência ao grupo de países mais desenvolvidos do mundo.
FHC disse que ‘‘a construção da América do Sul’’ como um bloco integrado ‘‘não representa uma opção pelo fechamento da região sobre si mesma. Disse ainda que, ‘‘unida, a América do Sul defenderá com maior força seus interesses comuns’’ nas negociações para a criação da Alca (Área de Livre Comércio das Américas), prevista para 2005.
Para ele, ‘‘a Alca se justificará na medida em que possa representar um instrumento para a superação dos desníveis socioeconômicos nas Américas’’. Enquanto isso, FHC defende a união dos dois atuais blocos econômicos e políticos -o Mercosul e a Comunidade Andina. Motivo: ‘‘Para chegar a um desmantelamento efetivo das barreiras comerciais dos parceiros mais ricos no hemisfério’’, afirmou FHC, durante discurso feito ontem à noite na cerimônia de abertura da primeira reunião de presidentes da América do Sul, que se encerra hoje, em Brasília.
Na reunião, FHC irá fazer duas propostas concretas: a formação de uma ‘‘zona de paz’’ – uma vez que a América do Sul é uma área livre de armas nucleares – e a criação de um fundo sul-americano de ciência e tecnologia, para subsidiar os avanços nessas áreas. Ele não detalhou como as duas propostas seriam implementadas.
Pela manhã, antes de encontrar-se com os 12 colegas no Palácio do Itamaraty, onde se realiza a Cúpula de Brasília, FHC falou para um grupo de 330 empresários latino-americanos, que participam de uma reunião paralela ao encontro presidencial. Nessa oportunidade, FHC defendeu ‘‘o regionalismo aberto’’ e a criação de marcos regulatórios – tal como as agências reguladoras dos serviços privatizados no Brasil – para a perfeita integração do hemisfério.
Fernando Henrique defendeu ainda a integração regional física dos países. ‘‘Somos vizinhos. Fica difícil trazer gás ou energia elétrica do hemisfério norte e eu não posso fazer uma ligação rodoviária do Brasil com os Estados Unidos, pois é muito cara. É essa a razão (da reunião)’’.
FHC comemorou o fato de, pela primeira vez na história, os 12 presidentes sul-americanos estarem sentados à mesma mesa, sozinhos. ‘‘O estranho não é fazer a reunião, é nunca nos termos reunido’’. Sobre a presença de um observador mexicano no encontro, FHC disse não ter maiores problemas e brincou: ‘‘Lamento que o México não seja vizinho do Brasil’’.
O presidente voltou a reforçar que ‘‘a América do Sul é sinônimo de democracia’’ e, indiretamente, acabou por fazer severas críticas ao presidente do Peru, Alberto Fujimori, que foi reeleito pela segunda vez sob críticas internacionais. ‘‘Cada vez mais exigiremos não apenas o voto, mas as condições de liberdade, de informação e de garantias jurídicas que dão ao sufrágio o significado efetivo da democracia.’’

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