O presidente Fernando Henrique Cardoso disse ontem em Cabo (a 31 km de Recife, PE) que o governo federal terá à disposição, ainda este ano, mais recursos para a aplicação em programas sociais. O dinheiro, afirmou, virá da economia gerada com o abatimento da dívida pública. A amortização do débito com os recursos obtidos na privatização da Telebrás reduzirá a conta de juros paga pelo governo.
Na tentativa de explicar por que decidiu utilizar o dinheiro da privatização para abater a dívida, e não em obras sociais, FHC disse que ‘‘não há como fazer o social se o econômico não vai bem. ‘‘Não há essa dicotomia entre o social e o econômico, declarou. ‘‘Quando o econômico vai bem, é obrigatório fazer o social’’. Segundo o presidente, um dos programas que deverão ser beneficiados com a redução da conta de juros é o de erradicação do trabalho infantil. ‘‘Queremos tirar 100 mil crianças do trabalho forçado e colocá-las na escola’’, disse.
FHC rebateu as declarações feitas pelo governador de Pernambuco e candidato à reeleição, Miguel Arraes (PSB), que acusa o governo federal de discriminar o Estado na distribuição de verbas. ‘‘Nunca deixei de apoiar Pernambuco’’, disse. ‘‘O governador sabe disso e até já me agradeceu em público’’, afirmou. ‘‘Fizemos 2.481 convênios com Pernambuco e transferimos mais de R$ 700 milhões para o Estado’’. Arraes, que recebeu o presidente na Base Aérea de Recife, reivindica a liberação de R$ 700 milhões pelo BNDES, a título de antecipação pela venda da Celpe (Companhia Energética de Pernambuco).
Mesmo ressaltando que estava no Estado ‘‘como presidente’’, o lado candidato de Fernando Henrique ontem não pôde ser disfarçado. Além disso, Arraes, que é candidato à reeleição, transformou-se num crítico contundente do governo federal, foi atacado pelo ministro das Comunicações, Luiz Carlos Mendonça de Barros, e acusou o presidente de estar ‘‘liquidando a federação’’, com a excessiva sangria de recursos dos governos estaduais. Os jornais locais de ontem abriram manchetes com ‘‘o clima hostil’’ que o presidente encontraria no Recife.
‘‘Toda semana, pingam recursos para o Brasil todo; o novo Brasil não é o da discriminação’’, garantiu. ‘‘Eu não sei qual é o prefeito, nem se está do lado de cá ou do lado de lá.’’ ‘‘Sei onde está o povo; não fazemos mais porque não temos recursos, não quero saber se o dinheiro é para o governo tal e qual; todos terão meu apoio, quando houver um programa útil para o povo’’, considerou.
O presidente evitou falar em eleição. Mas não se livrou de um contrangimento político: com palanque dividido em Pernambuco - onde o PSDB tem candidato próprio (o senador Carlos Wilson), e os aliados pefelistas do presidente apóiam outro candidato (Jarbas Vasconcelos, do PMDB) - FHC teve de receber os dois candidatos na comitiva. Mas, enquanto inspecionava obras, ficou longe dos dois.
FHC foi a Cabo para inspecionar as obras de duplicação de um trecho de 22,4 quilômetros da rodovia BR-101. Ele percorreu de carro cerca de 3 quilômetros da pista e conversou com trabalhadores da construção. Antes de deixar o local, meia hora depois, o presidente deu autógrafos a pessoas que estavam sobre um barranco.
Em Ouricuri (Oeste de Pernambuco), FHC foi verificar as obras da primeira etapa de construção da Adutora do Oeste, que vai levar as águas do Rio São Francisco até Padre Marcos (PI). Na verdade, o presidente viu apenas valetas, canos por instalar e homens que começaram a trabalhar quando ele chegou ao local.
Mesmo evitando responder perguntas sobre campanha, alegando que estava em viagem presidencial, FHC acabou comportando-se como candidato. Posou para fotos com um chapéu de cangaceiro que ganhou de presente e andou mais de 200 metros cumprimentando os eleitores, distribuindo autógrafos e beijos. A visita durou meia hora.PresenteO presidente Fernando Henrique recebe um chapéu de couro de Socorro Reis, em Ouricuri, sertão pernambucanoFábio Guibu
Agência Folha
e Agência Estado

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