O presidente Fernando Henrique Cardoso avisou ontem esperar que os parlamentares que votaram contra o mínimo de R$ 151, ‘‘porque estão contra o programa do governo’’, entreguem os cargos ocupados por apadrinhados. O aviso foi dado, primeiro, por intermédio do porta-voz Georges LamaziSre e, em seguida, por Fernando Henrique, em rápido pronunciamento, no qual ele cobrou também ‘‘coesão da base aliada para que o governo possa continuar trabalhando construtivamente pelo crescimento do País’’.
‘‘O governo precisa de menos politiquice, menos briga e mais ação concreta’’, disse o presidente. Segundo Fernando Henrique, o Brasil está pronto para crescer e os políticos não têm o direito de desviar a atenção – com discussão de interesses pessoais – de questões importantes e principais para o País. ‘‘Daqui para frente, não quero mais discutir questões pessoais’’, avisou, reafirmando o interesse em votar as reformas tributária e política.
FHC avisou que o pedido para que os que votaram contra entreguem os cargos é uma questão de ‘‘coerência política’’ e não ‘‘ameaça ou arrogância’’. ‘‘Os que estão apoiando o programa do governo têm o direito de ajudar na condução dele e os que estão contra têm o dever de, eles próprios, dizer que são contra e se afastar das responsabilidades de governo’’, disse o presidente. ‘‘Não se trata de nenhuma ameaça, nem é do meu estilo, mas de coerência política.’’
O PSDB, partido do presidente, consolidou-se como principal partido da base aliada na Câmara, tendo oferecido ao governo o maior número de votos, tanto em termos absolutos quanto proporcionais, na votação do projeto dos R$ 151 reais.
A tucana foi a única bancada que compareceu inteira, com os 104 deputados. Desses, 97 seguiram a decisão partidária em favor do governo e sete ficaram contra. Pelo fato de ter sido também o único partido a fechar questão em torno dos R$ 151, a Executiva Nacional deverá examinar as dissidências caso a caso. No final, a votação conjunta, que terminou por volta de 1h30 da madrugada de ontem, somou 348 a 205, contados os deputados e os senadores.
O governo venceu por uma margem de 120 votos, mas a dissidência nas bancadas dos partidos governistas não foi pequena. Além dos 20 deputados do PMDB que fazem oposição sistemática ao governo, outros 60 deputados governistas deixaram de votar segundo a orientação do governo e estão sujeitos a retaliações. O líder do governo na Câmara, Arnaldo Madeira (PSDB-SP), repeliu qualquer avaliação precipitada, dizendo que antes seria preciso fazer uma análise das justificativas dos parlamentares que não compareceram.
Ontem em Aracaju, o presidente de honra do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, disse que a aprovação do salário de R$ 151 ‘‘foi mais uma demonstração de que o governo Fernando Henrique Cardoso tem os seus olhos, ouvidos, coração e mente voltados pura e simplesmente para atender aos clamores do Fundo Monetário Internacional (FMI)’’. ‘‘O governo atende a todo e qualquer chamamento do FMI; não tem com os trabalhadores a mesma benevolência que dedica aos credores internos e externos’’, acrescentou Lula.

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