FHC prega radicalização da democracia
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quinta-feira, 04 de dezembro de 1997
Agência Folha Londres 
Agência Estado
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Cabeça apertadaO presidente Fernando Henrique passa mal e dona Ruth retira o boné da cerimônia na LSE: calor e apertoO presidente Fernando Henrique Cardoso passou mal ontem e foi obrigado a concluir sentado a fala na LSE (London School of Economics) em que defendeu radicalizar a democracia como resposta aos desafios postos pelos tempos modernos. O presidente estava falando há 15 minutos quando, às 11h20 (9h20 em Brasília), disse que se sentia mal, pediu um copo dágua, retirou o boné da cerimônia e sentou-se para continuar sua aula sobre Desafios Atuais à Democracia.
O presidente culpou o calor na sala A85 da LSE pelo mal-estar. FHC ainda brincou com Anthony Giddens, diretor da escola: Não estou acostumado a temperaturas quentes. Aos jornalistas, disse também que o boné que usava apertava a sua cabeça, o que contribuiu para a leve indisposição. FHC deixou a sala ainda pálido e com o passo ligeiramente trôpego mas, no coquetel servido em seguida, já demonstrava plena recuperação.
De boné negro à cabeça, toga vermelha com bordas cor creme, FHC repetiu, na essência, o discurso que vem fazendo a respeito da democracia, primeiro na Sorbonne (França) e depois na Universidade de Bolonha (Itália). Um discurso que parece um teorema. Começa pela constatação de que os partidos políticos encontram dificuldades para acompanhar as demandas de representação geradas no contexto de fragmentação temática que caracteriza a vida política contemporânea.
Continua com o fato de que as dificuldades orçamentárias dos Estados criam novos limites para o esforço de inclusão social, para a construção daquela soma inteligente de democracia formal e democracia substantiva que já foi o programa da social-democracia européia. Passa, ainda, pela globalização: Vários dos temas que afetam o dia-a-dia das populações envolvem fatores transnacionais, que escapam ao controle dos governos.
E termina, pelo menos no caso da América Latina, por uma certa nostalgia do autoritarismo, que, ainda que não se pregue a sua volta, tende a manifestar impaciência com o processo de diálogo e negociação que é próprio da democracia. Nesse ponto, FHC saiu do texto escrito para dizer que uma das situações mais chocantes que enfrentou uma vez no poder foi exatamente a solicitação não para ser autoritário, mas para ser mais rápido e direto na solução dos problemas.
Como se fosse possível um regime democrático não levar em conta os diferentes interesses da sociedade, completou. Feito o diagnóstico dos desafios à democracia, FHC deu a sua receita: A resposta não está em menos, mas em mais democracia. Explicitou depois: Radicalizar a democracia significa dar condições efetivas de liberdade para que todos, mesmo os que não estão organizados, falem. O presidente afirmou ainda que só essa democracia radicalmente pluralista, cada vez mais democrática, vai resolver o problema da exclusão, inclusive porque não há outro caminho.
Menos sociólogo e mais governante, FHC também defendeu a necessidade de repensar o papel das instituições internacionais criadas após a 2ªGuerra (como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial). Não bastam para lidar com a nova civilização, diria o presidente, já em resposta a uma das duas perguntas que lhe foram feitas após a aula. Engatou na sutil defesa da reivindicação brasileira de um lugar no Conselho de Segurança das Nações Unidas, o coração da ONU: disse que é preciso igualmente repensar a composição e as formas de atuação do Conselho, de modo a assegurar que ele tenha a legitimidade indispensável.
Por fim, voltou a se defender do rótulo de conservador que a oposição lhe atribui: Defender que o simplismo das dicotomias tradicionais entre esquerda e direita, operários e capitalistas, deve ser substituído pelo reconhecimento da complexidade de nossas sociedades não significa ser conservador.


