FHC pode adotar medidas impopulares
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sábado, 01 de novembro de 1997
Ricardo Amaral Agência Estado, Brasília 
Onze meses antes das eleições, o presidente Fernando Henrique Cardoso está passando pelo teste mais difícil - e menos desejado por ele - em sua campanha para renovar o mandato. A crise mundial das bolsas de valores ameaça o real e o presidente percebeu, antes mesmo de seus auxiliares e da oposição, que é preciso defender com unhas e dentes a estabilidade da moeda, mesmo com medidas impopulares. Temos de pensar no Brasil, não na reeleição, disse Fernando Henrique sexta-feira a um de seus ministros.
O presidente tem bem clara a noção de que seu futuro político está vinculado à origem, o Plano Real. Mais do que isso: além de defender a moeda, ele precisa mostrar ao País e à chamada comunidade financeira que está trabalhando pela estabilidade e pelo ajuste do Estado. Precisamos dar visibilidade ao nosso esforço de reformar e ajustar o país, para manter o clima de confiança mesmo com dificuldades, afirmou, quinta-feira, num encontro com dois líderes tucanos, o deputado Aécio Neves (PSDB-MG) e o senador José Arruda (PSDB-DF).
Terça-feira, essa visibilidade deve ser demonstrada numa reunião com todos os líderes governistas. Ele espera marcar a data como uma retomada do processo de reformas no Congresso, algo que acertou com o presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA), e outros políticos de peso, como o senador José Sarney (PMDB-AP). Fernando Henrique sabe que poderá ter de tomar outras medidas impopulares, além do aumento nas taxas de juros, mas vai correr o risco. No momento, ele só pensa em salvar o real, resumiu um assessor.
As oposições demoraram um pouco mais para perceber as mudanças que a crise provocou no cenário eleitoral. Os mais radicais, como o deputado Lindberg Farias (PSTU-RJ), só foram à tribuna na quinta-feira, quando as bolsas já davam sinais de acomodação, para criticar as medidas do governo, apostando uma reversão na sua curva de popularidade. Os mais sensatos, como o líder do PT, José Machado (SP), preferiram defender-se da acusação de que emperram as reformas: Somos apenas um quinto do Congresso, quem impede as votações é o fisiologismo das bancadas governistas, afirmou.
Se o risco do governo é um desastre na economia, o da oposição é aparecer diante da opinião pública torcendo pelo pior. A situação é gravíssima, mas não serei o urubu da esquerda, disse a deputada Maria da Conceição Tavares (PT-RJ), ao avaliar o quadro para seus colegas de bancada. O PMDB rebelde chegou a esboçar um manifesto em defesa do real, embalado de patriotismo. Consulta daqui, consulta dali, o manifesto foi engavetado na tarde de sexta: mesmo os mais governistas do PMDB não querem comprometer-se com um aval político a um programa de austeridade que pode render mais insatisfação do que votos.


