FHC nega barganha com Congresso
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segunda-feira, 23 de março de 1998
Agência Estado 
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CriseSanguinetti e FHC: crise no Paraguai provocada pela prisão do general Oviedo preocupa países do MercosulO presidente Fernando Henrique Cardoso disse ontem que as negociações políticas realizadas com setores do Congresso para aprovar projetos de interesse do Planalto não podem ser classificadas como barganha porque constituem exercício legítimo de negociação democrática. Ele atribuiu a dificuldade de implementação das reformas propostas pelo governo a uma visão antiga entrincheirada na vida política e até nas suas expressões partidárias e disse que é necessário convencer as pessoas de que as reformas são boas e não são contra elas.
Fernando Henrique fez um pronunciamento na sessão de abertura da 3ª Reunião Plenária do Círculo de Montevidéu, organização informal criada há dois anos a partir de uma proposta do presidente do Uruguai, Julio María Sanguinetti, para que personalidades de projeção internacional discutissem o desenvolvimento político e social da América Latina. Qualquer encontro do presidente da República com um setor do Congresso aparece na imprensa, no dia seguinte, como se fosse uma barganha, mesmo que esse setor venha para pedir algo legítimo, afirmou.
Segundo o presidente, há consenso entre os integrantes do Círculo de Montevidéu de que o maior desafio dos países da América Latina é conciliar a reestruturação econômica com a equidade social. Para que isso ocorra, disse ele, é necessária a reorganização do sistema político para se criar na sociedade uma nova ideologia, com valores e conceitos favoráveis às reformas.
O presidente classificou de reacionários os que acusam as reformas de prejudicar a maioria da população. Para ele, essa alegação é ideológica, no sentido da falsidade, e apenas disfarça interesses enraizados que estão sendo contrariados pelas mudanças promovidas pelo governo, como a reestruturação do Estado e a modernização das relações trabalhistas. Segundo o presidente, na América Latina, tanto a direita como a esquerda são atrasadas e defendem conjuntamente o Estado antigo, que ele classificou, ironicamente, de Estado de mal-estar social.
O problema maior do governo, segundo Fernando Henrique, é que todo o sistema partidário - não apenas no Brasil, mas num grande número de países -, está organizado ao redor de uma visão de mundo e de um conjunto de interesses que se opõem às transformações. Por isso, assinalou, é difícil conciliar governabilidade com progresso social, e buscar o necessário apoio da maioria política para as mudanças. Qualquer que seja a disposição do presidente da República, ele sabe que não avança um passo sem maioria, observou. As maiorias organizam-se a partir de sistemas políticos e de valores que foram feitos no passado.
O presidente lamentou ainda que muitos não reconheçam as mudanças positivas na maioria dos países latino-americanos, até no Brasil, como resultado das reformas econômicas. Há obstáculos mentais para que as pessoas enxerguem as transformações e para que elas vejam que, por sorte, mesmo as regiões mais pobres estão melhorando, disse.
No pronunciamento, Fernando Henrique voltou a elogiar o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, pela revisão dos conceitos do movimento trabalhista inglês e disse que, no mundo atual, altamente influenciado pelos meios de comunicação de massa, é fundamental a comunicação com a sociedade para haver a legitimação das mudanças. Se nos limitarmos à relação com o Congresso, sem atentarmos para a necessidade de difundir novas crenças, não faremos as mudanças necessárias, acentuou.


