FHC não vetará projeto que permite aborto
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segunda-feira, 01 de setembro de 1997
Agência Estado Brasília 
O presidente Fernando Henrique Cardoso disse ontem, em entrevista coletiva, que encaminhará ao Congresso proposta para regulamentar a atividade dos planos de saúde se os parlamentares não tomarem a iniciativa de fazê-lo. Ele considerou inaceitáveis alguns mecanismos usados por esses planos, como as cláusulas que prevêm aumentos exagerados das mensalidades para pessoas mais velhas. Existe um abuso com a questão da idade, afirmou. O presidente deixou claro também que não pretende vetar o projeto que permite aborto nos hospitais públicos. A lei já existe, cumpra-se a lei, frisou.
Fernando Henrique fez um balanço do Plano Real que, segundo ele, preparou o País para um período de crescimento sustentado, sem inflação. Mas voltou a apelar ao Congresso para que aprove as reformas constitucionais propostas pelo governo, que continuam sendo indispensáveis. Em outro momento, Fernando Henrique pediu união dos brasileiros em torno do objetivo de melhorar as condições de vida da população. Não transformemos o Sete de Setembro numa data de desunião, disse.
Para o presidente, o Brasil não corre o risco de sofrer problemas semelhantes aos vividos por países do sudeste asiático e ser forçado a desvalorizar o real. Ele reiterou que a política cambial não vai mudar e apontou o elevado nível de reservas e os grandes investimentos que estão chegando ao País como garantia de que o déficit no balanço de pagamentos não vai precipitar a economia numa crise de financiamento externo.
Fernando Henrique apontou o crescimento de 8% das exportações no primeiro semestre e uma ligeira queda no ritmo de crescimento das importações, nesse mesmo período, como indício de que o déficit na balança comercial poder ser reduzido. Segundo o presidente, ajustar a taxa de câmbio não resolveria o problema. O que é preciso é aumentar a competitividade da economia, criar melhores condições de financiamento aos exportadores e trazer para o País a produção de produtos hoje importados.
Na exposição que fez antes de responder a perguntas dos jornalistas, Fernando Henrique deu ênfase ao esforço do governo em promover a reforma agrária e relatou a visita que fez, no sábado, a um acampamento de sem-terra perto da fazenda que possui em sociedade com o ministro Sérgio Motta no município de Buritis (MG). Fiquei profundamente impressionado com as pessoas simples que realmente querem trabalhar, disse.
Segundo o presidente, a reforma agrária é um imperativo da pobreza e da democracia, mas é preciso desideologizar a questão. Não deve ser usada simplesmente como bandeira contra FHC, disse. Ele afirmou que o País poderá resolver a questão agrária dentro de alguns anos, mas para isso é necessário que o problema seja assumido por toda a Nação, e não apenas pelo governo federal. Esperar tudo do presidente é uma posição equivocada, burocrática e política, criticou.
Fernando Henrique voltou a rebater as afirmações de adversários que acusam o governo de praticar uma política neoliberal orientada pelo mercado, mas pouco preocupada com o aspecto social. O mercado resolve o problema do mercado, mas não resolve o problema das pessoas. Ele se disse socialista, no sentido de que se preocupa com os problemas sociais, mas afirmou que não se pode mais continuar buscando soluções antigas para esses problemas, como se fosse possível, por uma vontade política, por apertar um botão, as coisas acontecerem.


