Pressionado com uma crise energética sem precedente, com o agravamento da seca no Nordeste e com a popularidade despencando, o presidente Fernando Henrique Cardoso decidiu fazer uma operação para evitar que o seu governo transforme-se na ‘‘bola da vez’’. A reação começou a ser ensaiada na semana passada. O Palácio do Planalto estuda a possibilidade de fazer três movimentos políticos para recuperar o fôlego junto à sua base de sustentação: apressar uma reforma ministerial para recompor a base aliada; antecipar o lançamento da candidatura presidencial e intensificar a publicidade das ações de governo.
Essa semana será decisiva para a reação política. Amanhã, Fernando Henrique deverá ter um encontro com alguns integrantes do PMDB para discutir uma mudança no primeiro escalão. Não será a primeira vez que ele tocará no assunto. Na última quinta-feira, num demorado encontro com os líderes peemedebistas na Câmara e no Senado, deputado Geddel Vieira Lima (BA) e senador Renan Calheiros (AL), o tema foi discutido com o presidente. ‘‘O governo precisa comprar a idéia de uma reforma ampla’’, defendeu Geddel.
A avaliação no Planalto é que uma agenda nova na mídia, como uma mudança ministerial, não só diminuiria um enfoque negativo do governo, mas também atrairia aliados que hoje estão afastados. Com quem conversou nos últimos dias, o presidente não escondeu a preocupação com o grave momento de seu mandato e com o risco de uma implosão das forças que o apóiam. ‘‘Esse é o pior momento político dos meus seis anos de mandato’’, reconheceu Fernando Henrique para um aliado.
Apesar da ação política, o Planalto terá o cuidado de separar o difícil momento político dos problemas de governo. ‘‘A seca e a crise energética são dificuldades objetivas que precisam ser tratadas com eficiência e não como um tema político’’, ressaltou o ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência, Aloysio Nunes Ferreira. ‘‘São dois níveis de problemas que obedecem lógicas diferentes’’, insistiu Aloysio.
Não foi por acaso que começou a ganhar força uma reação palaciana. Quando estourou a crise energética, Fernando Henrique começou a trabalhar com dois cenários. No mais otimista, a crise seria contornada, evitando uma mudança mais significativa na operação política do governo. Como isso não aconteceu, o presidente foi forçado a agir.
Outro foco de pressão acabou sendo a renúncia do ex-senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), na última quarta-feira. Até então, lembra um ministro tucano, todo o enfoque negativo da mídia política estava direcionado para ACM. ‘‘Como ele deixou de ser o alvo, o governo passou a ocupar este lugar’’, explica o ministro. Ou seja, durante os últimos dois meses o Planalto utilizou a crise no Senado como escudo para evitar um desgaste antecipado.
Apesar da decisão de que é preciso agir, não existe um consenso entre os aliados sobre o que fazer. A principal reação é do ministro da Saúde, José Serra. Cotado como o principal presidenciável da base aliada, Serra não tem escondido sua irritação com a necessidade de ser obrigado a antecipar sua candidatura. Refém do desdobramento da crise energética, o ministro da Saúde teme ter o seu nome enfraquecido com uma exposição precoce da candidatura.
A principal pressão para que isto aconteça é do PMDB. O presidente do Senado, Jader Barbalho (PMDB-PA), chegou a colocar para Fernando Henrique a necessidade do governo apresentar em 60 dias um projeto de sucessão e de aliança política para 2002. O argumento apresentado por Jader colocou o presidente na parede: se o PMDB governista não tiver uma alternativa para apresentar até a convenção do partido, em setembro, a legenda seguirá com o governador oposicionista Itamar Franco (PMDB-MG).
No Planalto existe a preocupação com o distanciamento do PMDB. ‘‘É preciso fortalecer o PMDB aliancista, inclusive no ministério’’, defende o ministro Aloysio Nunes, evitando falar em sucessão. Mas a tese de Jader de antecipar o debate sucessório enfrenta resistências não só no PMDB, mas também em setores do governo e nos demais partidos da aliança. ‘‘É muito difícil o PMDB conseguir segurar a tendência pró-Itamar’’, reconhece o presidente do PFL, senador Jorge Bornhausen (SC). ‘‘Mas não podemos ficar na dependência do calendário do PMDB’’, observou.
Bornhausen reconhece a necessidade de criar fatos polêmicos para desviar o foco negativo do noticiário. Mas como alternativa, ele sugere a pauta de temas controversos no Congresso como os projetos da Lei de Imprensa e da Lei do Abuso de Poder e itens da reforma política como a fidelidade partidária, cláusula de desempenho e o fim da coligação para candidaturas proporcionais.
Já o presidente do PSDB, deputado José Aníbal (SP), defende uma mobilização partidária para desviar o governo da crise. ‘‘O PSDB precisa sair da defesa para o ataque e ganhar o debate de idéias’’, disse Aníbal, defendendo que o partido assuma a responsabilidade de fazer a publicidade do governo. ‘‘Os nossos adversários estão crescendo em torno da nossa inércia’’, sentenciou.

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