Gerson Camarotti
Agência Estado
De Brasília
Surpreendido com a antecipação do debate sobre a sucessão de 2002, o presidente Fernando Henrique Cardoso tomou uma decisão: fará de tudo para tentar tirar essa discussão do noticiário político. Para um interlocutor, que preferiu não se identificar para a reportagem, o presidente confidenciou que essa disputa antecipada poderá prejudicar a frágil harmonia na base de sustentação ao seu governo. Ele não imaginava que esse assunto chegasse de forma tão precoce, como nas últimas duas semanas, acirrando a disputa entre os seus aliados. ‘‘É preciso colocar panos quentes nessa disputa’’, sentenciou Fernando Henrique.
O principal gesto do presidente acabou acontecendo no final da semana passada, quando ele interferiu pessoalmente no PSDB para evitar o assédio dos tucanos em deputados do PFL, PMDB, PPB e PTB com o objetivo de tornar-se a maior bancada da Câmara. Mais do que nunca, o presidente sabe que será muito difícil manter a atual aliança que o sustenta nas eleições de 2002. Por isso, ele acha que o cuidado terá que ser redobrado para manter a governabilidade até o final de seu governo. Entre os aliados, e até mesmo no Planalto, já cresce a convicção de que a base governista estará dividida na sucessão de Fernando Henrique.
‘‘Esse afastamento vai acontecer de forma natural’’, avalia o governador tucano, Mário Covas (SP). ‘‘A menos que os outros partidos abram mão de suas candidaturas; afinal, não é possível aceitar que Fernando Henrique não tenha candidato de seu partido’’, avisa Covas. Já no Planalto, a ordem é tentar minimizar a dimensão do conflito que começa a surgir com a divisão dos três principais partidos da base. ‘‘É bom lembrar, que essa aliança pode voltar a se reunir num segundo turno’’, pondera o ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência, Aloysio Nunes Ferreira. ‘‘Até porque, não somos tão incompatíveis assim, já que estamos juntos’’.
Para o cientista político Gaudêncio Torquato, professor titular da USP, a disputa de 2002 teve o seu acirramento de forma antecipada entre os principais partidos de sustentação ao governo por causa das recentes demonstrações de ‘‘ambição avassaladora’’ feitas pelo PSDB. ‘‘O bico grande dos tucanos entrando na casca dos outros partidos está provocando feridas dolorosas que possivelmente não serão cicatrizadas até as eleições presidenciais’’, comparou Torquato.
Segundo o cientista político, mesmo que a economia tenha uma boa recuperação, dificilmente o PFL e o PMDB voltam a fazer uma aliança preferencial com os tucanos depois que o PSDB deflagrou a sua ambiciosa estratégia.

mockup