FHC mapeia Senado para tentar barrar CPI
O presidente Fernando Henrique Cardoso entrou na operação do governo e dos aliados no Congresso para barrar a comissão parlamentar de inquérito (CPI) ampla, destinada a apurar 22 denúncias de corrupção no País. Alertado pelos líderes dos partidos aliados no Senado, em reunião no Palácio do Planalto na noite de anteontem, o presidente decidiu procurar em seguida os dissidentes do PMDB no Senado, que prometem apoio ou assinaram o requerimento para a criação da CPI. Não houve avanços concretos do governo, mas a avaliação geral, de aliados e adversários do Planalto, é de que a temperatura da crise baixou.
Além do presidente, entraram em campo os líderes governistas e o secretário-geral da Presidência, ministro-chefe Aloysio Nunes Ferreira. Com a lista dos 81 senadores nas mãos, eles examinaram cada nome e concluíram que, apesar de o risco de abertura do inquérito ser grande, ainda há tempo de evitar a CPI. - Na pior hipótese, nós chegaríamos a 25 assinaturas, quando o mínimo necessário para instalar a CPI são 27, contou ontem o líder do PFL, senador Hugo Napoleão (PI). Ele acredita que a coordenação política do governo se movimentou bem nas últimas 24 horas e aposta no fim de semana para ajudar a esvaziar a crise.
Estancamos o sangue desta primeira hemorragia, mas a situação ainda pode complicar, analisou Napoleão. Tanto é assim que o líder encontrou um presidente preocupado e perplexo com a extensão da crise política que causou prejuízos à economia nacional e ainda pode comprometer a imagem do Brasil no exterior. Depois de o presidente do Congresso e nacional do PMDB, senador Jader Barbalho (PA), ter dado a assinatura em apoio à CPI, a maior preocupação do governo é com a dissidência dentro do partido, que, segundo o levantamento feito na reunião, soma seis senadores, além de Jader.
A lista de problemas peemedebistas inclui os senadores José Fogaça (PMDB-RS), Pedro Simon (PMDB-RS), Maguito Vilela (PMDB-GO) e Roberto Requião (PMDB-PR), computados como votos dados à CPI, e a dupla José de Alencar (PMDB-MG) e Amir Lando (PMDB-RO), como promessas. Ao comentar cada nome, o líder do PMDB no Senado, Renan Calheiros (AL), foi objetivo no diagnóstico do caso de Alencar. Com este aí, presidente, é só o senhor. Fernando Henrique respondeu com presteza: Terminando a reunião, ligo já. Foram quase 30 minutos de conversa só com Alencar.
As ponderações repetiam os mesmos argumentos usados na conversa com os líderes. Tanto a Alencar como a Fogaça, para quem o presidente havia telefonado, antes mesmo do encontro de líderes no Planalto, Fernando Henrique afirmou que a CPI seria terrível para a imagem do País. Fica parecendo que isto aqui é um mar de lama, quando nós sabemos que tudo isto é um processo político construído artificialmente, argumentou.
Fernando Henrique afirmou também que, no governo do ex-presidente Fernando Collor de Mello, houve corrupção em toda a administração, apesar das ressalvas positivas em que inclui o ministro Celso Lafer e o presidente nacional do PFL, senador Jorge Bornhausen (SC).
Isso não existe no meu governo e, quando tem, eu mando apurar como fiz nos casos do DNER (Departamento Nacional de Estradas de Rodagem) e da Sudam (Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia), disse Fernando Henrique.
Os interlocutores concordam com o presidente. Fogaça diz até mesmo que uma CPI tão ilimitada quanto esta perde até a seriedade. Mas nem Fogaça nem Alencar foram demovidos de apoiar o inquérito. Fogaça, que assinou, diz que Fernando Henrique teve a delicadeza de não lhe pedir que retirasse o apoio. Alencar, que mantém a promessa, preferiu dar a resposta por escrito, em carta enviada ontem ao Planalto. Nela, o senador renova o respeito, carinho e admiração que tem por Fernando Henrique, mas adverte que não há como deixar de assinar a CPI.
A estratégia do Planalto é segurar o ímpeto dos parlamentares ao menos pelas próximas duas semanas. Calheiros, que anunciara um reunião da bancada do PMDB para ontem, deu a colaboração, adiando o encontro para a próxima semana. O líder do governo na Câmara, Arnaldo Madeira (PSDB-SP), diz que só haverá crise se houver apoio efetivo do governo. A situação está agravando-se, mas ainda pode ser contornada, emenda um colaborador próximo ao presidente. O discurso do governo contra a CPI se sustentará em três vertentes: o reflexo negativo da crise política na economia, que sofre revezes trazidos pela conjuntura argentina, e o que consideram perseguição política e inconstitucionalidade do pedido de CPI.





