O ministro da Justiça, José Gregori, afirmou ontem que o governo brasileiro irá pedir, por meio de carta rogatória, documentos relativos à CH, J & T, empresa que faz parte do dossiê Cayman. Gregori disse que ainda hoje o embaixador brasileiro nos Estados Unidos, Rubens Barbosa, deverá receber as cartas rogatórias para encaminhar ao Departamento de Justiça norte-americano, ao FBI (a Polícia Federal dos EUA) e ao governo das Bahamas.
A expedição da carta rogatória será o primeiro passo da reabertura das investigações sobre o dossiê Cayman, um conjunto de papéis sem autenticidade comprovada que se tornou público depois das eleições de 98. Segundo Gregori, o objetivo da retomada das investigações é esclarecer quem encomendou e quem fabricou o dossiê. A CH, J & T era uma empresa com sede em Nassau (Bahamas) que o dossiê Cayman dizia ser uma sociedade entre o governador Mário Covas, morto na semana passada, o ministro Sérgio Motta, morto em 98, o ministro José Serra e o presidente Fernando Henrique Cardoso.
A ação do governo foi provocada pela publicação, pelo jornal ‘‘O Globo’’, de uma entrevista com um dos suspeitos de ter fabricado o dossiê, vendido em 98 a políticos brasileiros. Na entrevista, Oscar de Barros, que está em prisão domiciliar em Miami, afirma que havia dois dossiês, um falso e outro com origem em alguns documentos verdadeiros.
Sem referir-se à ação do governo no passado, quando o próprio FHC determinou o encerramento do inquérito antes que as investigações estivessem concluídas, Gregori afirmou que o governo ‘‘tem sempre’’ o interesse de esclarecer o caso.
Segundo o ministro, o mesmo delegado que investigou o dossiê em 98 e 99, Paulo de Tarso, deverá assumir as investigações. Até o fechamento dessa edição, a Folha não havia conseguido localizá-lo. A reabertura do inquérito, no entanto, não será um ato automático. Para reabrir o processo, o delegado Paulo de Tarso terá de obter a concordância do procurador-chefe da República, Luiz Augusto Santos Lima, que encerrou as diligências do caso, e do juiz da 12ª Vara Federal de Brasília, Marcus Vinicius Reis Bastos, que determinou o início do processo, que corre até hoje.
Segundo a assessoria de imprensa da Polícia Federal, todas as diligências que haviam sido solicitadas e não foram cumpridas serão realizadas agora. Com a reabertura das investigações, o ministro Gregori afirmou que o governo pretende mostrar que o dossiê é uma ‘‘trama’’ para atingir a imagem da cúpula do tucanato. ‘‘Não nos basta apenas a denúncia e a punição dos que tentaram tirar proveito eleitoral do dossiê. É preciso saber quem o encomendou e quem o fabricou, para identificar quem se aproveitou dessa urdidura criminosa.’’
Usando sempre o termo ‘‘urdidura’’ (maquinação), o ministro afirmou que a empresa CH, J & T nunca existiu e que o ministro Sérgio Motta nunca fez parte dela. A afirmação vai contra as investigações feitas pela PF e pela Interpol. Ficou constatado que a empresa existiu, mas, devido ao encerramento do inquérito, nunca ficou esclarecido se o ministro das Comunicações realmente fez parte dela como diretor.
‘‘Reafirmo que ninguém que tem boa-fé ou alma limpa em algum momento duvidou que se tratava de uma urdidura criminosa. Queremos colocar na cadeia quem tentou tirar proveito dessa trama’’, disse Gregori. Para o ministro, caso os responsáveis pelo dossiê sejam descobertos, será possível processá-los por um ‘‘glossário de crimes’’, entre eles falsidade ideológica, formação de quadrilha e estelionato.

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