O presidente Fernando Henrique Cardoso autorizou o ministro da Justiça, Renan Calheiros, a demitir o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Vicente Chelotti. O ministro queria substituir Chelotti desde o fim de 1998, depois que o diretor da PF colocou resistências ao afastamento de delegados da corporação acusados de corrupção, mas somente agora Calheiros recebeu carta branca do presidente. Calheiros volta ao Brasil hoje - ele estava em Lima - e vai manter contato com lideranças políticas antes de escolher o novo diretor-geral da PF.
A primeira conversa do ministro deverá ser com o senador Romeu Tuma (PFL-SP), líder interino do governo no Senado, que foi diretor da PF. O Palácio do Planalto, entretanto, decidiu substituir Chelotti por alguém da própria corporação.
As conversas gravadas em que Chelotti diz ter ‘‘cola superbonder na cadeira’’ e o ex-ministro da Justiça Íris Resende ‘‘nas mãos’’ foi apenas um fator a mais para aumentar a irritação dentro do Palácio do Planalto. A decisão de substituir o delegado fora tomada há tempo, mas Fernando Henrique vinha preservando Chelotti porque o diretor-geral da PF tinha sido indicado pelo ex-ministro da Justiça Nélson Jobim, atual ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), grande amigo do presidente.
O desgaste alcançou também Calheiros, que não engolia a irritação com Chelotti, depois que o diretor-geral, ao colocar resistências ao afastamento de policiais corruptos, obrigou o ministério a criar uma comissão para afastar delegados envolvidos em denúncias de corrupção, com base num dossiê preparado pelo Ministério Público (MP). A partir do trabalho da comissão, o Ministério da Justiça afastou e demitiu mais de 50 agentes e delegados da PF, vários deles amigos de Chelotti, que continuaram sendo elogiados em público pelo diretor-geral, exemplo dos delegados Jairo Kulmann, Lassere Kratzel Filho e Mauro Sposito.
Calheiros vinha revelando a autoridades do Ministério da Justiça que Chelotti não colaborava de forma devida quando a pasta queria deflagrar campanhas de defesa do consumidor. O ministro tentou algumas vezes, sem o sucesso esperado, reprimir a atuação dos agiotas e a ação criminosa de alguns donos de supermercados. Calheiros dizia acreditar que Chelotti sempre colocava resistências a quaisquer temas de interesse do consumidor.
Outro motivo que levou o Palácio do Planalto a autorizar a demissão de Chelotti foi a recusa do diretor-geral da PF em trabalhar de forma integrada com a área de inteligência do governo federal, especialmente a Secretaria Nacional Antidrogas (Senad), que vem tentando internacionalizar o combate ao narcotráfico no Brasil.
Chelotti resistiu ao máximo em indicar um assessor para fazer parte das reuniões com os técnicos do órgão. O secretário da Senad, Walter Maierovitch, defendia maior participação da PF na localização de mafiosos e narcotraficantes que sustentam ramificações de máfias no Brasil. Chelotti insistia que não há grandes mafiosos no País. Ao comprar a briga com Maierovitch, Chelotti acabou pisando ainda mais no calo do chefe da Casa Militar, Alberto Cardoso, o homem da inteligência no governo, de extrema confiança de Fernando Henrique.
Alberto Cardoso disse a um senador que não confiava em Chelotti, depois de tantos episódios envolvendo escutas telefônicas que surpreenderam o governo. O delegado criou inimigos dentro do Planalto, a partir das escutas do caso Sistema de Vigilância da Amazônia (Sivam), em que foram gravadas conversas de Fernando Henrique com o chefe do Cerimonial da Presidência, embaixador Júlio César Gomes dos Santos.
Na época, foram afastados dos cargos Santos e o ex-presidente do Incra, Francisco Graziano. As pressões levaram o ministro da Aeronáutica, Mauro Gandra, a deixar o cargo. A vítima da última escuta telefônica foi o próprio Chelotti, que disse ser irremovível do cargo, sugerindo ter informações privilegiadas para se manter à frente da PF.

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