Arquivo FolhaFacadaPorto: demitido pelas costas não deve aceitar Ministério do Trabalho como consolaçãoO presidente Fernando Henrique Cardoso deve concluir hoje a montagem do ministério da reeleição, resultado da substituição de cinco ministros candidatos e da fritura de outros dois: Carlos Albuquerque, da Saúde, e Arlindo Porto, da Agricultura. A nova equipe reflete as preferências pessoais do presidente, pinçadas nos cinco partidos de sua base de apoio (PMDB, PFL, PPB, PSDB e PTB), a decisão de dar mais relevo ao PSDB no governo e algumas contingências regionais que podem influir nas eleições de outubro.
O ponto de partida da reforma foi a escolha do senador José Serra (PSDB-SP) para o Ministério da Saúde, avaliada no Palácio do Planalto como o grande salto político do governo. O mais dramático foi a demissão, pelas costas, do ministro Arlindo Porto, fato que será consumado hoje com a oferta de um prêmio de consolação - o Ministério do Trabalho - que Porto, do PTB, tende a recusar. Ele dá lugar a Francisco Turra, do PPB, nomeação necessária para facilitar a reeleição do governador Antônio Brito (PMDB) no Rio Grande do Sul.
A demissão de Arlindo Porto foi uma decisão pessoal do presidente, que tentou fazê-la passar como reivindicação do presidente de honra do PPB, Paulo Maluf. Na quarta-feira, depois de levar o novo ministro da Indústria e do Comércio, Botafogo Gonçalves, ao Palácio da Alvorada, Maluf reivindicou mais espaço para seu partido no Ministério. ‘‘Indiquem o Turra para a Agricultura que eu nomeio’’, devolveu o presidente, pedindo que o PPB formalizasse em lista a indicação do presidente da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
A lista começou a ser feita no mesmo dia, alertando os parlamentares do PTB, que reagiram. O novo ministro do Planejamento, Paulo Paiva, conseguiu articular com o presidente o deslocamento de Porto para o Trabalho, mas faltava o ‘‘sim’’ do maior interessado, que viajou para a Austrália magoado e retornaria ontem humilhado. Fernando Henrique repetiu, no caso, a história da ex-ministra Dorothéa Werneck, que em 1995 soube pela imprensa que havia perdido, para Francisco Dornelles, do PPB, a pasta da Indústria e do Comércio.
Com dois ministros fritos e depois de pinçar quem desejava no PPB, restou ao presidente administrar a cizânia que ele mesmo havia instalado no PMDB e no PFL. Primeiro, segurou no Ministério dos Transportes o deputado Eliseu Padilha, do grupo gaúcho, e contou com o veto daquela seção do partido ao nome do senador Jader Barbalho para o Ministério da Justiça. A escolha ficou restrita aos senadores Renan Calheiros (AL) e Ramez Tebet (MS), apoiado por Iris Rezende.
Mais uma vez, a escolha foi pessoal: Renan Calheiros é velho amigo do presidente, com quem fundou o PSDB em 1987. Foi a ponte entre Fernando Henrique e o ex-presidente Fernando Collor numa fracassada tentativa de aproximação. O futuro ministro da Justiça transita nas áreas derrotadas pelo governo na convenção do PMDB. Junto com Eliseu Padilha, garantirá a eleição de Jáder Barbalho para a presidência do partido e espantará o fantasma de que, em junho, nova convenção ressuscite a candidatura do ex-presidente Itamar Franco. Como bônus, limpa o caminho para a candidatura do presidente do PSDB, Teotônio Vilela Filho, ao governo de Alagoas.

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