O deputado federal Delfim Netto (PPB-SP) disse ontem que o presidente Fernando Henrique Cardoso acertou ao antecipar, na quarta-feira, o anúncio das medidas para antes do segundo turno eleitoral. ‘‘Fernando Henrique está fazendo a coisa certa, porque ele precisará de muita credibilidade no segundo mandato e, ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, é o Fernando Henrique que dá credibilidade à política econômica devastadora que está aí e não vice-versa, por isso fico feliz que ele tenha anunciado suas intenções antes do segundo turno eleitoral’’, disse Delfim.
Segundo o ex-ministro da Fazenda e do Planejamento de governos passados, Fernando Henrique deixou claro que o ajuste será doloroso e deixou mais claro ainda que, se houver ajuda externa, o custo do ajuste será menor. ‘‘Não vai acontecer nada de trágico no Brasil, vamos apenas pagar as consequências de um erro de política cambial determinada há quatro anos, cuja correção demorou para chegar’’, disse Delfim. Na opinião dele, a equipe econômica já está negociando um acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI) há mais de um mês, apesar de não ter sido feito nenhum comunicado oficial.
Mas o ex-ministro também afirmou que as medidas anunciadas por FHC não vão alterar em nada o rumo da economia no segundo mandato. Delfim Netto foi um dos convidados do seminário ‘‘O que muda na economia após as eleições’’, organizado pela Internews, no Hotel Transamérica, ontem em São Paulo. Os outros convidados foram o ex-deputado Aloízio Mercadante, o professor Mangabeira Unger e Andrea Calabi.
Delfim afirmou que a saída da crise está na adoção de um novo ‘‘mix’’ de política econômica com a ajuda externa, o que diminuiria o custo social do ajuste fiscal. Ao contrário do economista Aloizio Mercadante (PT) e do professor Mangabeira Unger (assessor do candidato à Presidência Ciro Gomes, do PPS), Delfim avalia que o cenário pós-eleitoral não será catastrófico. ‘‘Com mais dois ou três meses de juros altos, mais ajuda externa, o câmbio, que está sobrevalorizado, vai convergir para o seu valor real e voltaremos ao crescimento, porque sem ele não há esperança para o Brasil’’, disse Delfim.
Segundo o ex-ministro, o Brasil precisa crescer entre 3% e 6% ao ano, o que quer dizer que as exportações têm de crescer entre 12% e 14% ao ano. ‘‘Não voltaremos ao crescimento sem uma expansão robusta das exportações. Hoje os economistas estão mais preocupados com os aspectos financeiros, o que não leva a nada.’’
Em relação a política de câmbio sobrevalorizado, Delfim Neto disse que não adianta o governo brasileiro tentar manter o câmbio fixo quando em todos os outros paises ele está flutuando. ‘‘Não é nem uma teoria econômica, é uma teoria de mecânica, o ponto fixo é que recebe toda a tensão. ‘‘Nossa divergência é, desde o início, em relação à política de câmbio porque o plano de estabilização fixou a âncora cambial e conseguiu uma estabilidade bem sucedida, mas em março ou abril de 95 deveria ter ocorrido uma correção adequada no câmbio’’.
Segundo Delfim, se a correção cambial ocorrer hoje o governo corre o risco de perder o controle da correção ou as reservas, e nesse caso não haveria a possibilidade de socorro externo.
Ao terminar sua palestra no seminário, o deputado Delfim Neto criticou a movimentação financeira que ocorre nas bolsas mundiais sob a desculpa de globalização. ‘‘É preciso pôr um pouco de areia nas engrenagens, porque o mundo não sobrevive com a movimentação anárquica de capitais, a globalização financeira não tem suporte na teoria nem na prática econômica’’, afirmou.

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