Agência Estado
(Não é permitida a reprodução total ou parcial desta foto dentro ou fora do Brasil)Mão fechadaCardoso caminha entre escolares em Uberlândia: demonstração clara de que não quer o ministro brigando por mais verbaO presidente Fernando Henrique Cardoso fortaleceu ontem a decisão da equipe econômica de diminuir em R$ 1,3 bilhão os recursos da saúde no Orçamento de 1998, argumentando que o gasto per capita do setor dobrou em seu governo, mas o atendimento não melhorou. Em três ocasiões, durante visita de quatro horas a Uberlândia (MG), o presidente preocupou-se em justificar a redução da verba: ‘‘O importante não é quanto gasta, mas no que gasta, se está gastando bem ou se está gastando mal.
Fernando Henrique disse ter ‘‘certeza’’ de que, com os mesmos recursos empregados hoje, é possível obter resultados mais ‘‘significativos’’. Ele admitiu que ainda existe corrupção no setor e condenou a burocracia do Ministério da Saúde. O ministro Carlos Albuquerque, que acompanhou Fernando Henrique na viagem, ouviu o discurso do presidente e não quis comentá-lo.
Na sua vez de falar, o ministro limitou-se a dar razão a Fernando Henrique. ‘‘Não é apenas de recursos que se faz a gestão da saúde. Albuquerque foi, no entanto, um dos primeiros a alertar a Comissão Mista de Orçamento sobre o fato de a verba de 1998 ter ficado menor do que o valor autorizado pelo Congresso para este ano. A Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) em vigor veta a diminuição de recursos para a Saúde.
O presidente afirmou também que não havia recebido o manifesto intitulado ‘‘Alerta à Nação’’, que condena o corte no orçamento da saúde, assinado por todos os líderes da bancada governista na Câmara. ‘‘Não recebi, mas vou ler com toda a atenção’’, declarou. Dois dos líderes que assinaram o manifesto acompanharam o presidente na viagem de ontem.
O deputado Aécio Neves (PSDB) amenizou as críticas. ‘‘Não é um manifesto; é um documento de apoio à saúde’’, disse, negando a intenção de votar contra a prorrogação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) até 1999, cujos recursos são destinados à saúde. O líder do PPB, Odelmo Leão, direcionou seus ataques à equipe econômica.
O presidente deu também uma demonstração clara de não aceitar que Albuquerque siga o exemplo do ex-ministro da Saúde, Adib Jatene, de brigar por verbas com a equipe econômica. Segundo Fernando Henrique, o ministro conhece as dificuldades e sabe que ‘‘1 milhão a mais ou 1 bilhão’’ não vai resolver o problema da saúde no País.
‘‘Saúde não é só dinheiro, saúde é muito mais do que isso, é qualidade de vida’’, definiu o presidente. Fernando Henrique atacou os relatórios que só comparam o volume de verbas aplicadas, sem levar em consideração o uso. Ele cobrou dos profissionais de saúde ‘‘carinho’’ no atendimento ao povo mais pobre, lembrando que, para isto acontecer, não bastam aumento de salários e melhores equipamentos. ‘‘É preciso que haja um certo sentido de missão.
O presidente anunciou a decisão do governo de reequipar as emergências dos hospitais e priorizar as verbas públicas para a revitalização dos postos de saúde. Para o presidente, é hora de fortalecer os postos de saúde, que são públicos, ‘‘desinflando os hospitais’’. Fernando Henrique também deu ênfase à disposição em acabar com os ‘‘órgãos inúteis’’ ligados ao Ministério da Saúde, como fez com a Central de Medicamentos (Ceme).
De acordo com o presidente, a manutenção de funcionários ‘‘que não têm o que fazer’’ é um gasto inútil com o setor. Fernando Henrique admitiu que parte da verba destinada à saúde não chega ao destino, ‘‘seja pela burocracia, pela morosidade e até mesmo pela corrupção’’. O presidente afirmou que o Brasil não aceita mais procedimentos que não sejam ‘‘limpos e lícitos’’ e avisou: ‘‘Temos de ser capazes de controlar ralos’’, explicando que esses ralos são os gastos que não têm a ver com seus objetivos.
As declarações foram feitas durante a visita a Uberlândia, onde inaugurou a hidrelétrica de Miranda e um trecho do poliduto que liga São Paulo a Brasília. Lançou também uma cartilha sobre o funcionamento dos consórcios de prefeituras na área de saúde. Fernando Henrique, que usou o helicóptero para se deslocar na cidade, ficou alheio à pequena manifestação contra o governo, feita pela oposição. ‘‘São sempre os mesmos’’, desdenhou o presidente.

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