France PresseMão estendidaCardoso, entre os presidentes do Paraguai e México: distensão no conflito com a Argentina para não abalar interesses comerciaisOs presidentes Fernando Henrique Cardoso e Carlos Menem (Argentina) selaram ontem uma trégua na disputa pública por uma vaga no Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas). Em conversa paralela à reunião do Grupo do Rio, os dois afinaram o discurso, resumido em três ‘‘v’’: Argentina e Brasil querem que a América Latina tenham ‘‘vez, voto e veto’’ no conselho, que comanda as Nações Unidas. Atualmente, somente cinco países têm essas condições: Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido e França.
A reforma do organismo será debatida na Assembléia Geral da ONU a partir de setembro e, por enquanto, não há apoio formal da região à candidatura do Brasil a uma vaga permanente - pivô do recente conflito entre os dois países. ‘‘Queremos a participação plena para o país ou os países que vierem representar a nossa região’’, declarou FHC, abrindo a possibilidade de mais de um país latino-americano representar a região no conselho.
A polêmica vai continuar. Mas os dois países acertaram que combinarão previamente seus passos no cenário internacional. O objetivo é evitar abalos ao Mercosul, a aliança econômica que os dois países lideram, junto com Paraguai e Uruguai.
Antes mesmo de conversarem, na pose para os fotógrafos e cinegrafistas, FHC e Menem aproveitaram para descontrair o relacionamento entre os dois países. Ao se cumprimentarem na suíte Dinastia do Hotel Yacht y Golf Club, transformaram em brincadeira a ironia feita na véspera por FHC às ‘‘relações carnais’’ que o chanceler argentino, Guido Di Tella, declarou manter com os Estados Unidos. Menem e FHC levantaram-se da mesa do encontro para um abraço, que seria registrado pelas câmeras. ‘‘Isso me encanta’’, entabulou o presidente argentino. ‘‘Um pouco mais, nos casam’’, observou FHC. Rindo, Menem aproveitou para encaixar a crítica que FHC fizera na véspera, dizendo que o Brasil não queria ter ‘‘relações carnais com ninguém’’. ‘‘São relações carnais’’, constatou Menem no abraço. ‘‘É, carnais’’, devolveu FHC, emendando, às gargalhadas: ‘‘E o Guido (Di Tella) será o padrinho’’.
A declaração conjunta de FHC e Menem foi apressada, segundo o presidente argentino, para barrar rumores de abalos no Mercosul. ‘‘Precisamos evitar que siga crescendo uma versão sobre um possível distanciamento entre Brasil e Argentina’’, disse Menem. Apesar de não chegarem a um acordo sobre a representação da América Latina no Conselho de Segurança da ONU, o presidente argentino insistiu em que a polêmica se resumia a uma ‘‘situação acidental’’ no relacionamento dos dois países.
FHC minimizou o fato de o Brasil não obter previamente o apoio a sua candidatura. Preferiu dar ênfase ao fortalecimento do Mercosul, área de livre comércio criada em 1991 e que deverá estar totalmente consolidada a partir do ano 2000. ‘‘Nada é mais importante do que o fato de o Brasil e a Argentina estão, foram e continuarão unidos’’, resumiu o presidente. Depois da reunião paralela, Menem e FHC se juntaram aos colegas do Grupo do Rio. FHC defendeu a reforma do Conselho de Segurança da ONU dizendo que havia um descompasso entre a nova ordem econômica mundial e os instrumentos de decisão política.
Até o início da noite, o Grupo do Rio tinha previsto assinar uma declaração conjunta genérica em favor da participação da América Latina no Conselho de Segurança.

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