O presidente Fernando Henrique Cardoso reuniu-se quinta-feira à noite com o presidente de honra do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, seu principal adversário nas eleições deste ano. O encontro, no Palácio do Alvorada, foi o primeiro entre os dois desde o início do governo Fernando Henrique. Lula, que divulgou a reunião no final da tarde de ontem - a reunião foi considerada segredo - disse ter atendido a convite do presidente, com quem conversou por mais de uma hora. Ele esteve no Alvorada acompanhado do governador do Distrito Federal, Cristóvam Buarque (PT).
Segundo Lula, o encontro reservado teve caráter pessoal e não partidário. ‘‘Foi uma conversa entre dois homens públicos’’, disse. O diálogo aconteceu uma semana depois que a Executiva Nacional do partido decidiu recusar o convite do presidente para um encontro formal, que vinha sendo feito com insistência desde novembro. ‘‘Se o presidente da República estiver disposto a ouvir a oposição sobre o que ela pensa do Brasil, sobre as propostas que ela tem, o PT e a oposição têm muita coisa a dizer’’, disse Lula a Fernando Henrique.
O próximo passo desse diálogo, segundo Lula, seria um convite formal do presidente ao PT, com a elaboração de uma pauta de discussão. ‘‘A iniciativa terá de ser do PT, através do nosso presidente (José Dirceu), se o partido entender que deve apresentar uma proposta sobre vários assuntos que estão na pauta do dia, ou do presidente’’, disse Lula, que, no entanto, não abandonou suas críticas ao governo.
‘‘O presidente terminou o mandato sem fazer nada do que prometeu’’, afirmou Lula antes de embarcar de volta a São Paulo. Ele disse ainda que a simples constituição do Ministério da Produção não vai resolver o problema do desenvolvimento do País. ‘‘É preciso determinação política para fazer isso’’, afirmou Lula, lembrando que a proposta de criação do Ministério da Produção constava de seu programa de governo.
O presidente do PT, José Dirceu, disse que soube do encontro somente hoje, quando Lula fez um breve comunicado aos parlamentares da bancada que participavam de um seminário na Câmara dos Deputados, marcado pelas duras críticas à condução da política econômica do governo e ao acordo do Brasil com o Fundo Monetário Internacional (FMI). ‘‘Não vejo nada de mais nisso, foi um encontro apenas simbólico’’, afirmou Dirceu, que não acredita na aproximação do governo com a oposição. ‘‘Não tem desdobramento porque o governo não sinaliza com nenhuma mudança na política econômica’’, acrescentou.
O líder do PT na Câmara, Marcelo Déda (SE), concorda em parte com o presidente do partido. ‘‘Uma conversa é só uma conversa’’, disse Déda, parodiando um verso da música ‘‘As time goes by’’, tema do filme Casablanca. ‘‘A kiss is just a kiss, um beijo é só um beijo’’, brincou. Mas, para ele, o encontro entre o presidente e Lula foi importante para mostrar que o PT não tem medo de conversa. ‘‘Conversar não significa ceder’’, argumentou.
Fernando Henrique telefonou a Lula por volta das 22 horas de quinta-feira, convidando-o a ir ao Alvorada. Os dois comentaram o estado de saúde do governador de São Paulo, Mário Covas, que será operado na segunda-feira para retirar um tumor maligno na bexiga, e o presidente agradeceu o fato de Lula ter tido um comportamento ético ao recusar-se a fazer a denúncia sobre o Dossiê Cayman.

mockup