Os presidentes Fernando Henrique Cardoso e Jacques Chirac, da França, se encontram hoje na cidade de Saint George de L’Oyapok, na Guiana Francesa, na fronteira com o Amapá. Os dois presidentes devem discutir a integração entre os dois países na área da fronteira. Será o primeiro encontro de Fernando Henrique com um chefe de Estado de um país desenvolvido após a crise global das bolsas de valores. Desde a crise do México, no final de 1994, Chirac tem sido um interlocutor frequente do presidente brasileiro, que defende a criação de mecanismos para controlar a movimentação dos capitais especulativos no mercado internacional.
De acordo com a apertada agenda preparada pelas chancelarias do Brasil e da França, os dois presidentes passarão menos de três horas juntos. Fernando Henrique deve chegar às 12h25 a Oiapoque, do lado brasileiro da fronteira, deslocando-se de helicóptero, em seguida, para Saint George. Nos 25 minutos que deve permanecer em Oiapoque, o presidente poderá perceber um protesto silêncioso da população local. O Itamaraty negou-se a estender a permanência de Fernando Henrique na localidade e, por essa razão, o prefeito João Neves (PSB) está conclamando as pessoas a não comparecerem ao aeroporto para recepcionar o presidente.
O governador do Amapá, João Alberto Capiberibe, também do PSB, tenta, entretanto, esvaziar o protesto. ‘‘Vamos receber Fernando Henrique não como líder de um partido, mas como presidente de todos os brasileiros’’, disse ele ontem. Embora integre um partido de oposição ao governo, Capiberibe considera que a visita de Fernando Henrique estratégica para o projeto do governo do Amapá para desenvolver a região. ‘‘A vinda do presidente é importante para desenvolver a área de fronteira, o Estado do Amapá e toda Região Norte’’, afirmou.
O principal projeto em andamento na fronteira do Brasil com a Guiana Francesa é o asfaltamento da Rodovia BR 156, que liga Macapá a Oiapoque. Depois de uma travessia do Rio Oiapoque por balsa, a ligação permitirá a conexão rodoviária do norte do Brasil até Caiena, a capital da Guiana Francesa. Cerca de 200 km dessa estrada ainda precisam ser pavimentados do lado brasileiro. Na Guiana, faltam apenas 30 km de asfalto.
O Itamaraty considera que a integração desse trecho da divisa norte do País é essencial para completar o trabalho de consolidação das áreas de fronteira do Brasil com os países vizinhos. Tanto que o encontro com Chirac deixou em segundo plano o antigo princípio anti-colonialista da política externa brasileira, embora sob muitos pontos de vista a Guiana Francesa possa ser considerada um dos últimos enclaves europeus em território americano.
‘‘A Guiana Francesa não tem status de colônia, mas de departamento da França, como qualquer outro’’, justifica o diretor de Departamento da Europa do Itamaraty, ministro Marcelo Jardim. ‘‘E não existe ali nenhum movimento reivindicando independência.’ Segundo o Ministério das Relações Exteriores, o desenvolvimento do lado brasileiro da fronteira também interessa à França, para conter a migração de brasileiros para a Guiana Francesa. Atraídos pela melhor situação econômica da Guiana _ onde a renda per capta supera US$ 8 mil por ano - cerca de 14 mil brasileiros se deslocaram para aquele país nos últimos anos, representando hoje quase 10% da população local.

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