FHC diz que EUA não têm
hegemonia sobre o mundo
O presidente Fernando Henrique Cardoso disse que os Estados Unidos não têm hegemonia sobre o mundo, em pronunciamento no Fórum Euro-Latino- Americano, em Lisboa. ’’(Os Estados Unidos) Não conseguiram fazer guerra ao Iraque recentemente’’, disse.
‘‘Não há (hoje) potência que possa ser hegemônica; pode querer ser, mas não pode ser; não estamos diante de uma Roma’’, completou. No caso de guerra contra o Iraque, Fernando Henrique disse que os Estados Unidos tinham a força necessária para uma ação militar. ‘‘Mas a força no mundo de hoje não consegue ser exercida sem um certo consentimento que vem das sociedades’’, argumentou. A recusa a aceitar a guerra contra o Iraque, segundo Fernando Henrique, veio primeiro da própria sociedade americana, que foi seguida por outras, incluindo a francesa e a brasileira.
Fernando Henrique aproveitou para comemorar uma vitória da diplomacia brasileira sobre a americana. Ele referiu-se à consolidação do Mercado Comum do Cone Sul (Mercosul), que, por ser um bloco regional, tem sofrido ataques de críticos que vêem o mercado comum como um obstáculo à integração mundial. A posição defendida pelo Brasil tem sido a de desenvolver o Mercosul primeiro para negociar por meio do bloco com os outros parceiros comerciais, o que contraria os interesses americanos.
Fernando Henrique fez uma referência a este tipo de estratégia, que costuma ser chamada pelo governo de regionalismo aberto. ‘‘Era inaceitável e acabou sendo aceito’’, disse. Ele disse ainda que acabou ouvindo um comentário de aprovação do regionalismo aberto do próprio presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, nos jardins do Alvorada, durante a visita do americano ao Brasil.
Para Fernando Henrique, existe uma diferença fundamental entre as potências hegemônicas do passado, como Roma, na Antiguidade, e o papel atual dos Estados Unidos, o qual chama apenas de país ‘‘predominante’’.
O presidente disse que mesmo os detentores do poder político e econômico nos Estados Unidos não têm poder suficiente para determinar o uso da força, como no caso do Iraque. ‘‘Estamos diante de um mundo que tem opinião pública’’, argumentou. Ele citou as organizações não-governamentais (ONGs) como exemplo de entidades sem relação com o Estado, mas que formam opiniões e, portanto, têm influência sobre decisões. ‘‘As ONGs, que irritam tanto os que estão no poder, têm um papel fundamental’’, disse.
O presidente Fernando Henrique Cardoso voltou a condenar os saques promovidos pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e a manifestação ocorrida em Brasília que produziu dezenas de feridos. Segundo ele, esses fatos são ‘‘muito ruins porque dão a impressão de que as coisas podem sair do trilho’’. ‘‘Mas não vão sair’’, avisou ele.
‘‘O trilho está bem firme no solo e nós temos muita gente capaz de levar a locomotiva’’, advertiu. ‘‘Eu vou ajudar bastante nisso’’, completou. Para o presidente, o MST ‘‘foi um movimento social, mas hoje é político’’.(AE)

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