Curitiba - ''Ética na política requer transparência.'' As palavras são do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), que ocupou a presidência de 1995 a 2002. FHC esteve em Curitiba na noite desta segunda-feira, para a palestra ''Ética e Política'', no Estação Embratel Convention Center. Segundo o ex-presidente, que agora tem um instituto com seu nome, a transparência sozinha não basta. Precisa andar junto com a competência e a capacidade de explicar à população os motivos das decisões dos governantes.
A palestra de FHC durou cerca de uma hora e meia. O ex-presidente, relembrando os tempos de professor universitário, começou citando filósofos e pensadores: Platão, Aristóteles, Maquiavel, Rousseau, Max Weber, entre outros. FHC lembrou que a citação comumente atribuída a Maquiavel os fins justificam os meios é uma interpretação equivocada da obra do autor de ''O Príncipe'', no século XVI. ''Isso significaria que quem tem uma boa causa toma qualquer providência para servi-la.'' O ex-presidente também citou Max Weber, frisando que o homem público tem dupla responsabilidade no exercício do poder. ''Acreditar em algo e ao mesmo tempo ser responsável pelos seus atos.''
FHC comentou que a política nos séculos anteriores era diferente. E com isso fez o gancho para os dias atuais. ''Por que mandar e por que obedecer é a grande questão?'', perguntou, passando a discutir a relação entre os chefes de Estado e o povo. Para FHC, a chave para o governante é se expressar bem, é saber explicar a seus governados as razões de seus atos, pois só assim seu poder terá legitimidade, o que não é garantido apenas pelo voto. O ex-presidente frisou que o regime democrático está baseado na aceitação, no consenso. ''O mundo em que vivemos é aquele em que para mandar é preciso explicar. Para o presidente dar uma ordem, ele precisa ter o embasamento na Constituição, nas leis, pareceres da Procuradoria Geral, da Casa Civil. É preciso cumprir ritos.''
Para ilustrar sua argumentação, FHC lembrou de seus dias como ministro da Fazenda no governo Itamar Franco (1992-1994). Ele e sua equipe tiveram que explicar à população o funcionamento da Unidade Real de Valor (URV), a partir da qual surgiria o real, dentro do plano concebido para estancar a inflação.
FHC fechou a palestra defendendo a necessidade de transparência na política. Segundo ele, não se aceita mais a corrupção. ''Quando não se aceita, se denuncia mais, o olhar público está mais vigilante'', disse.
No final da palestra, foi aberto tempo para algumas perguntas. Logo após dizer que não é candidato, FHC não deixou passar a oportunidade de provocar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), seu adversário político que tem sido criticado pela oposição por governar em um estilo similar ao do governo anterior. ''(O Lula) tem feito discursos muito parecidos com os que eu fazia'', disparou, ao responder uma pergunta sobre os caminhos para o Brasil. FHC frisou que o caminho para o Brasil é o da perseverança, pois não há ''milagres''.
Cerca de 3 mil pessoas ouviram a palestra. A renda obtida, cerca de R$ 90 mil, foi repassada à Fundação Pró-Renal, uma entidade filantrópica criada em 1984.

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