O presidente Fernando Henrique Cardoso disse ontem em Quebec (Canadá), onde está participando da Cúpula das Américas, ser contra qualquer acordo político para evitar a cassação dos mandatos de ACM e Arruda. Falando como ex-senador e líder de seu partido, o PSDB, Fernando Henrique defendeu que a violação do painel do Senado seja investigada pela Casa e todos os fatos revelados. O presidente também mandou um recado duro aos aliados que pretendem usar o apoio à CPI da Corrupção como moeda de troca junto ao Planalto.
Segundo relato de parlamentares que integraram a delegação que viajou para o Canadá, o presidente avisou que o governo não pagará o preço de aceitar chantagem de políticos escondida por trás das assinaturas, para impedir o apoio de deputados à proposta de abertura da CPI. Segundo esses interlocutores, foi uma referência do presidente aos parlamentares evangélicos ligados ao Partido Liberal (PL), que anteciparam essa semana sua disposição para assinarem a CPI na semana que vem.
‘‘O momento é de esclarecer as questões e não existe o meu apoio nem minha decisão no que diz respeito ao PSDB, porque o resto é decisão do Legislativo, no sentido de fazer qualquer manobra para esconder fatos. Fatos têm que ser revelados no âmbito próprio que é o Senado’’ disse o presidente após café da manhã com o presidente da Argentina Fernando de La Rúa.
Os líderes dos partidos da base aliada do governo no Congresso ensaiaram nesta semana uma operação-abafa de bastidores, que serviria aos interesses de todos e acomodaria a crise política. A proposta, que começou a ser costurada por lideranças partidárias, tentava evitar a cassação dos dois senadores (o que interessaria ao PSDB e PFL), garantir um ‘‘cessar-fogo’’ ao presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães, atingido pelas investigações sobre os desvios de dinheiro na Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), e ainda retirar assinaturas de aliados à CPI da Corrupção, o que atenderia ao Planalto.
Apesar de defender a apuração sobre a violação do painel do Senado, o presidente FHC voltou a insistir que a CPI da Corrupção não deve ser instalada e fez um apelo aos políticos brasileiros para que ‘‘pensem no Brasil e deixem de lado querelas menores’’ o que, segundo o presidente, não significa esconder nada embaixo do tapete. ‘‘Faço um apelo aos parlamentares brasileiros para que não transformem as coisas que existem na política em obstáculo à governabilidade porque isso não é patriótico’’, afirmou Fernando Henrique.
O presidente voltou a insistir na tese de que a CPI não deve ser instalada por não ter assunto determinado e enfatizou que o governo não teme qualquer investigação nem está tentando esconder nada. ‘‘Pode fazer muita CPI, à vontade, porque o governo não tem nada a esconder. Mas tem que ser (CPI) própria, num âmbito apropriado e num caso determinado’’, disse.
Segundo os parlamentares que acompanham FHC, o aviso do presidente aos aliados que ameaçam o governo com o apoio à CPI foi bastante enfático. ‘‘Ele deixou claro que se o preço for a barganha, o governo não está disposto a pagar’’, disse o deputado Antônio Kandir (PSDB-SP).
(Leia sobre a viagem de FHC em Folha Economia)

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