FHC diz que caso Jorge não é político
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terça-feira, 18 de julho de 2000
William França Agência Folha De Maputo 
Depois de ficar constrangido diante de outros seis presidentes e de um primeiro-ministro, o presidente Fernando Henrique Cardoso disse ontem que o caso Eduardo Jorge não é uma questão de governo. Se houver, ela é individual. FHC afirmou ainda que não vê razões para uma CPI, mas apenas fatos para o Ministério Público investigar.
Não se trata de um processo contra o governo nem de uma questão política. Se houver alguma questão, ela é individual, primeiro. Depois e se for o caso o governo não tem nada a esconder, afirmou FHC, durante entrevista coletiva concedida ao final dos dois dias da 3ª reunião de cúpula dos países de língua portuguesa, em Maputo (Moçambique).
Durante as 38 horas em que esteve em Moçambique, FHC sempre recusou tratar do caso Eduardo Jorge, seu ex-secretário-geral, com os jornalistas brasileiros. A oposição está disposta a convocar o ex-secretário para para explicar supostas ligações com a obra superfaturada e inacabada do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo.
Qualquer tentativa de pergunta era interrompida por gritos de não responde, dados por sua assessoria de imprensa. FHC evitou falar do caso Jorge diante dos colegas, mas teve de tratar dele depois de ter sua posição de democrata e de líder regional questionada.
Logo no início da coletiva, uma repórter quis saber se FHC conhecia e tinha autorizado as ações de lobby e as pressões políticas que Eduardo Jorge exercia no governo, conforme relato de quatro ex-ministros dele José Eduardo Andrade Vieira (Agricultura), Cláudia Costin (Administração), Bresser Pereira (Ciência e Tecnologia) e José Carlos Dias (Justiça) e se isso havia sido o motivo para que Eduardo Jorge deixasse o governo depois de dirigir a campanha da reeleição.
Tudo o que eu tinha a dizer já foi dito há algum tempo. Não tendo havido nada de novo, não tenho o que acrescentar, respondeu FHC. Além do mais, eu pediria aos jornalistas brasileiros que nós só falássemos sobre a Comunidade de Países de Língua Portuguesa, que é do interesse de toda a audiência que está aqui, e que deixassem essas questões brasileiras para o Brasil, completou.
A segunda frase foi suficiente para que a comitiva brasileira que acompanhava a entrevista no fundo do auditório se comportasse como uma claque de auditório e o aplaudisse efusivamente. Eles (jornalistas) tinham de falar disso, reclamou um diplomata, enquanto aplaudia o presidente. Nesse momento, o repórter Ricardo Amaral, do jornal Valor Econômico, pegou o microfone e interrompeu a sessão de aplausos. Peço desculpas, mas o senhor não respondeu tudo o que gostaríamos de saber, afirmou.
Em seguida, completou: Alguns dos presidentes aqui presentes são líderes políticos de países de democracias jovens ou refundadas há pouco mais de 25 anos, forjados no combate ao autoritarismo e à corrupção que dela decorre. Então por isso, e até porque todos eles acompanham sim as questões brasileiras e no Brasil inspiram suas democracias, gostaria que o senhor respondesse à questão e também se tem posição formada com relação à constituição de uma CPI para investigar o caso.
Após essa interrupção, o clima entre os assessores de FHC mudou repentinamente. Os demais presidentes olhavam surpresos para o colega brasileiro. FHC demorou alguns segundos para, visivelmente constrangido, iniciar a resposta.
O governo nunca teve decisão formada sobre matérias que são do Congresso. Os líderes do governo é que têm de falar (sobre CPI). Por outro lado, essas questões têm um caminho constitucional, que é o Ministério Público, afirmou.
Depois de dizer que o caso Eduardo Jorge não deve ser encarado como um problema de governo, FHC voltou a reclamar da conduta dos jornalistas brasileiros, dizendo que eles deveriam limitar um pouco a ansiedade, e tratou de novamente minimizar a questão interna.
O Brasil é um País com tanta importância no mundo, que tem uma ação tão persistente, que é preciso deixar espaço para que se discutam os temas de maior importância e que não são passageiros, como esses temas que eventualmente possam ser colocados por vocês, afirmou FHC.


