Irritado com o noticiário sobre a denúncia de que teria uma empresa em paraíso fiscal, o presidente Fernando Henrique reclamou ontem no Rio que a imprensa esteja dando espaço a ‘‘farsantes, falsários e pessoas que o Brasil custou a expulsar da vida pública’’. No primeiro pronunciamento sobre o caso, ele não revelou quem estaria tentando atingi-lo, mas deu pistas que levam ao ex-presidente Fernando Collor, afastado do cargo em 1992 no escândalo do Esquema PC. ‘‘Peço aos senhores que não ousem me perguntar sobre o que não deve ser pensado e muito menos respondido por alguém que tem dignidade, tem decência, como eu’’, disse o presidente. Ele referiu-se à notícia publicada ontem nos jornais, demonstrando que seria ‘‘uma mistificação, uma falsificação grosseira’’ o dossiê com documentos sobre a sua suposta participação e de outros tucanos na sociedade.
Fernando Henrique falou aos repórteres momentos antes de uma palestra para cerca de 700 oficiais da Marinha, Exército e Aeronáutica, na Escola Naval, no Rio. Ele demonstrou indignação por a imprensa dar crédito ao que chamou de ‘‘uma montagem reles, malfeita, feita por farsantes, falsários, alguns reaparecendo, pessoas que o Brasil custou a expulsar da vida pública’’.
O presidente considerou um desrespeito ‘‘ousarem perguntar não ao presidente da República, mas a uma pessoa que tem 50 anos de vida de trabalho, perguntas que não são nem respondíveis, que devem ser repudiadas, de plano’’. ‘‘E eu não falo só por mim (mas pelo) governador de São Paulo (Mário Covas), o ministro da Saúde (José Serra), o outro (Sérgio Motta) está morto.’’ Os tucanos a quem ele se referiu também são apontados, no dossiê, como sócios da empresa.
Fernando Henrique declarou sentir tristeza porque, no momento em que luta para afirmar a presença internacional do Brasil, vê ‘‘notinhas no exterior levantando suspeitas sobre o que não pode ser suspeito: a honorabilidade do presidente da República’’. ‘‘O patrimônio moral vale mais do que tudo, e o patrimônio moral de um presidente é indispensável para o País’’, assinalou. ‘‘Então, realmente eu preciso expressar ao País a indignação que sinto, por ver, mais uma vez, pessoas sem credibilidade voltarem à vida pública com insinuações.’’ Fernando Henrique também lamentou que isso ocorra no momento em que trabalha ‘‘dias e noites defendendo nossa moeda, defendendo o Brasil’’.
Em sua palestra para os oficiais, feita a maior parte do tempo a portas fechadas, o presidente destacou que a estabilização da economia já vai para seu quinto ano, ‘‘apesar de carpideiras e cassandras ameaçarem de morte o Plano Real a cada seis meses’’. ‘‘Eles não percebem que o golpe fatal não vai ser em mim, mas no povo brasileiro’’, afirmou.
Fernando Henrique disse que a democracia no Brasil está fortalecida e disse que nas últimas eleições 85 milhões de brasileiros votaram, em ambiente de tranquilidade. Após a palestra, o presidente parecia mais calmo que ao chegar. Chamado novamente pelos repórteres, que queriam novas declarações, riu e respondeu: ‘‘Por hoje, chega.’’Otávio Magalhães/Agência EstadoFuxicosFernando Henrique fala à imprensa ao chegar à Escola Naval, no Rio: apesar das cassandras, real vai bemPresidente quebra silêncio sobre acusação e diz que há ‘‘uma montagem reles, malfeita, feita por farsantes, falsários’’

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